Crônica - O Encontro
O Encontro
Por Comendador Cesar A. Salgueiro
Voltei ao mesmo restaurante e lá estava ela novamente, ocupando a mesma mesa, radiante e feliz. Acompanhada, sim, embora eu não soubesse dizer se pelo mesmo homem; confesso que, na ocasião anterior, sequer reparei na figura que dividia a mesa com ela.
O ambiente ao redor seguia seu ritmo habitual: um murmúrio de vozes, o tinir metálico dos talheres e o cruzamento difuso de conversas. Mas, para mim, o tempo pareceu suspender seu curso. Como na primeira vez, a maneira como ela sorria, a delicadeza de seus gestos e, sobretudo, o jeito envolvente com que arrumava os cabelos... Tudo nela compunha uma poesia visual que apenas eu era capaz de decifrar em meio àquele salão lotado. De forma inesperada, eu vivia a releitura daquela experiência.
E então, nossos olhares se cruzaram. Não foi um esbarrão visual casual; havia um magnetismo silencioso naquela troca, um diálogo inteiro travado sem que uma única sílaba fosse pronunciada. Eu a observava, mais uma vez, tomado por um fascínio imediato.
"Será que ela se lembra de mim?", questionei-me em pura curiosidade.
Logo em seguida, assaltou-me a preocupação de parecer inoportuno, de ser confundido com um desses inconvenientes que vagam pelo mundo. Baixei a guarda. Disfarcei, voltando a atenção para a minha taça, onde um Catena Malbec argentino me confortava naquela noite fresca e ligeiramente melancólica.
Sou orgulhoso e vaidoso demais para passar um recibo tão evidente de deslumbramento. Meus olhos não ousaram mais retornar àquela direção.
Em meio à algazarra de sons do restaurante, não pude deixar de notar o soar compassado de passos vindos em minha direção. Eram passadas longas, elegantes. Mesmo sem erguer os olhos, pude imaginar saltos altos e finos calçando pés delicados, que avançavam decididos. Talvez passassem direto, sem me notar. Ou, talvez, fossem os passos daquela mulher na mesa adiante, vindo ao encontro do meu desejo secreto de aproximação.
A cadeira ao meu lado foi suavemente afastada. Foi quando, paralisado, vi aquela verdadeira escultura viva olhando para mim, balbuciando algo como: "Posso me sentar?".
Eu já não ouvia som algum; a surpresa me deixou em choque. Meus olhos apenas a fitavam, perplexos. Aquilo realmente estava acontecendo?
Nossos lábios se tocaram e, num transe repentino, já não estávamos no restaurante.
Despimo-nos embalados pelo avanço das carícias, enquanto a noite festejava aquele encontro. As estrelas pareciam brindar à presença da lua, que lançava seu brilho prateado por entre as frestas das cortinas de um quarto de hotel, em algum lugar impreciso, onde finalmente adormecemos.
Não costumo me lembrar dos meus sonhos, mas, desta vez, tudo foi tão palpável e real quanto estas linhas que agora escrevo.
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