O Medo de Ser Amado aos 72
O Medo de Ser Amado aos 72
(Uma crônica sobre o pânico, a beleza e a aceitação do afeto)
Por Comendador Cesar A Salgueiro
Dizem que o pânico é um medo sem rosto, um visitante indesejado que chega ao amanhecer e se recusa a ir embora ao anoitecer. Eu o conheço bem.
Convivo com essa sombra que me sussurra perguntas sobre o amanhã e me faz temer o que ainda nem veio. Mas o que mais me intriga nesta jornada, aos meus 72 anos, não é a solidão — é, por incrível que pareça, o excesso de carinho.
Eu me olho no espelho e vejo o tempo. Vejo as marcas, o cansaço, a beleza que eu acredito já ter partido há muito. No entanto, o mundo parece discordar de mim. Recebo afetos generosos, tanto de amigos físicos quanto virtuais. Homens e mulheres que me cercam de atenções, que me chamam de bonito, que me tratam com uma reverência que eu, às vezes, sinto não merecer.
Confesso: esse amor me assusta.
Dá medo de decepcionar, de não estar à altura de tanta gentileza. É como se eu vivesse em uma "dívida de gratidão" constante. Por que gostam tanto de mim? O que eles veem que eu não consigo enxergar?
Hoje, começo a entender que esse pânico que sinto talvez seja o medo de perder esse estado de graça. Mas decidi que preciso aprender a "receber". Se as pessoas veem luz em mim, quem sou eu para apagá-la com as minhas dúvidas? A beleza aos 72 não é a do colágeno; é a da presença, da escuta e da história que carrego nos olhos.
Não sei o que o amanhã reserva, e esse "não saber" ainda me faz tremer. Mas, por hoje, escolho aceitar o elogio sem justificativas. Escolho entender que não sou um peso para os outros, mas talvez um porto seguro.
Vou trocando o pânico pela poesia, um dia de cada vez, lembrando que o medo é apenas uma nuvem que passa, mas o afeto que plantei... esse permanece.
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