Crônica : Sobre o medo e a superação Por : Comendador Cesar A Salgueiro Eu tinha muito medo, claro. Aquela visão abalou toda a minha estrutura emocional, e um vazio cheio de dúvidas explodiu bem na minha frente. O caixão com o corpo da minha mãe descia em direção ao esquecimento de uma escuridão fria e solitária; era um buraco no chão envolto em concreto impenetrável. Havia uma multidão de estranhos conhecidos e familiares desconhecidos na plateia daquele espetáculo de humilhação que sentenciava o fim da vida — não só daquela mulher, mas da minha também. Meu irmão mais velho, com a cabeça encostada em uma árvore, chorava. Não sei se isso foi verdade, se aconteceu mesmo ou se a minha imaginação inventou; parece-me dramático demais para não ser a cópia de uma cena hitchcockiana de cinema. A bem da verdade? Não tenho a menor ideia de quem estava lá. E, a partir dali, veio o meu medo. Os dias, os anos e as décadas que se sucederam foram de um constante enfrentamento...