O Peso das Malas Vazias
O Peso das Malas Vazias
Eu nunca fui bom com os pontos finais. Há quem diga que despedir-se é um tipo de libertação, mas, para mim, cada "adeus" soa como um rasgo.
Ao longo da vida, especializei-me em colecionar partidas: grandes amores que se tornaram estranhos, amigos que o tempo diluiu e lugares que hoje só visito na memória.
Dizem que a gente se acostuma, mas a verdade é que o nó na garganta é sempre o mesmo. Não importa se é o terminal de um aeroporto ou o silêncio que fica no quarto depois que alguém vai embora; a sensação de que um pedaço da gente foi levado na bagagem do outro é constante.
Eu não gosto de partidas. Elas me deixam com essa sensação de inacabado, como um livro que teve a última página arrancada bem na hora do desfecho.
Por causa desse peso, fiz uma escolha: o desapego. Decidi que prefiro o vazio da isenção ao risco da perda.
Hoje, caminho com as mãos leves e o peito blindado. Não quero mais me enraizar em novos rostos, não busco mais o brilho de olhares desconhecidos que, amanhã, podem se tornar apenas sombras no meu passado.
Desapeguei-me de tudo. Das coisas materiais, que acumulam poeira e memórias, e dos sentimentos, que acumulam esperança e dor.
É uma forma de paz, eu sei, mas uma paz silenciosa e solitária. Prefiro não conhecer, não me aprofundar, não deixar que o afeto me enlace novamente. Afinal, quem não se prende, não precisa se soltar. E, para quem já viveu grandes despedidas, a liberdade de não amar parece ser o único refúgio seguro contra o inevitável adeus.
Pode parecer estranho para quem olha de fora, mas há uma liberdade imensa em não pertencer a nada e a ninguém.
Dizem que o isolamento é um fardo, e talvez por isso falem tanto de mim. Julgam o meu silêncio, estranham a minha falta de raízes e tentam medir a minha felicidade com a régua de suas próprias carências.
Mas a verdade é que, no meu desapego, encontrei uma serenidade que eles desconhecem. Sou feliz assim. Muito mais feliz, aliás, do que todos aqueles que gastam o tempo comentando sobre a minha escolha.
Enquanto eles se perdem em dramas e apegos que amanhã serão poeira, eu caminho leve, sem malas e sem pesos.
Minha felicidade não depende do outro; ela floresce no espaço que conquistei só para mim.
É aqui, nesse meu canto, que encontrei uma nova forma de companhia. Meus amigos virtuais, essas vozes e textos que surgem na tela, são como janelas abertas para o mundo.
Eles não batem à porta. Basta um clique para que o silêncio se preencha com ideias novas, leituras instigantes, músicas que eu nunca ouviria sozinho.
É uma troca fluida, sem o peso das expectativas reais, mas com a verdade de quem compartilha um momento, uma risada, um pensamento.
Meu refúgio não me deixa só; ele me mantém conectado de uma forma leve, profunda, desapegada e essencial.
É assim, no meu particular vazio.
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