Minhas Memórias. Capítulo 01

 


Memórias de uma Vida Plena


Meu nome é Cesar Augusto Salgueiro. Aos 71 anos e sete meses de vida bem vivida, tomei a decisão de registrar minhas memórias. Iniciei esse esforço em meu blog, antes que o tempo as tornasse menos nítidas, e hoje resolvi estender essas publicações também aqui ao Facebook.

A partir desta data, compartilharei semanalmente capítulos da minha trajetória real, intercalados com crônicas que ajudam a desenhar a minha personalidade. Espero, sinceramente, que seja uma jornada divertida para todos nós.


O Título de Comendador

Para que me conheçam um pouco melhor antes de iniciarmos, esclareço a origem do tão comentado título de Comendador: tive a audácia e a honra de presidir o Sindjustiça-RJ por quatro mandatos consecutivos e, em seguida, a Fenajud por dois mandatos sucessivos.

Essa trajetória de liderança ocorreu entre os anos de 1993 e 2002, e foi justamente neste período que recebi o título de Comendador, por serviços prestados ao Judiciário carioca.

No entanto, minha vida não se resume apenas a esses marcos profissionais. Por considerá-la tão plena e gratificante, senti o desejo de compartilhá-la com o público em geral.

Peço desculpas antecipadamente por qualquer imprecisão cronológica. Minhas lembranças têm a liberdade de viajar no tempo, e a narrativa será construída à medida que elas vierem à tona.

Espero que se divirtam e, acima de tudo, que possam tirar algum proveito dessas experiências.


Capítulo 01 - A morte



Eu contava nove anos de vida.

Recordo-me de dormir ainda em um berço, posicionado de frente para o corredor, no apartamento que partilhávamos em São Cristóvão, Rio de Janeiro. Éramos meu pai, minha mãe, meu irmão, três anos mais velho, e eu.


Havia, além do que residia conosco, um outro irmão bem mais velho, com catorze anos de diferença. Naquela época, ele já estava casado e sua esposa esperava o primeiro filho; viviam em outra área do subúrbio carioca.

Do meu berço, a vista alcançava a porta do quarto dos meus pais, a do banheiro e, ao fundo do corredor, a sala de jantar.


O berço ficava rente à porta. Na extremidade oposta, perto da janela, estava a cama do meu irmão.

Meu pai havia sido atingido pela paralisia há cerca de dois anos. Sem firmeza nas pernas, apoiava-se em muletas e se movia com dificuldade.


Antes da doença, tínhamos o hábito de brincar de luta em sua cama, que nos parecia um ringue de boxe. Era divertido; guardo a lembrança de um profundo amor por ele. Adorava nossa interação.


Por vezes, eu o via pela janela de seu quarto, vigiando meu retorno da escola. Sentia-me seguro, amado, uma sensação reconfortante.


Quando a enfermidade se manifestou, ele se isolou do restante da família de maneira automática.

Tornou-se intolerante e passou a beber.


A partir desse ponto, o medo e as discussões incessantes instalaram-se na família. A bebida de meu pai sempre trazia a expectativa de uma nova briga.


Ele não saía mais de casa; ficava na janela e, do segundo andar, saudava quem passava pela calçada.

As finanças estavam apertadas, e minha mãe preparava doces, salgados e bolos em casa para auxiliar nas despesas.


Eu adorava ficar na cozinha, furtando pedacinhos do que ela preparava. Ela não gostava muito, mas permitia.


Em suma: meu pai estava preso às muletas, incapaz de se locomover sem elas, e não aceitava sua situação. Minha mãe trabalhava em casa para cobrir as despesas.


Naquela manhã específica, lembro-me de despertar com o ruído de minha mãe saindo para comprar pão e os itens do café.

Após a saída dela, debrucei-me na borda do berço e, para minha surpresa, vi meu pai atravessar do quarto ao banheiro, sem as muletas e caminhando com firmeza”.


Permanci ali, desconfiado, à espera de que ele saísse do banheiro.


- “Meu pai sem as muletas!" — foi o que pensei.


Logo ele saiu, olhou para mim, esboçou um leve sorriso e retornou ao quarto, novamente sem auxílio das muletas.

Deitei-me e, sem conseguir compreender o ocorrido, voltei a adormecer.


Fui despertado pelos gritos e pelo pranto desesperado de minha mãe. Vi meu irmão correr na direção do quarto dela, mas a porta foi fechada, impedindo sua entrada.

Saltei do berço e comecei a chorar e a chamar por minha mãe. Meu irmão fazia o mesmo, em coro.


Não sei quanto tempo se passou até que minha mãe emergiu do quarto e, sem nos deixar entrar, murmurou com a voz embargada:


"Seu pai morreu."


Ela nos pediu que fôssemos a uma igreja vizinha buscar água benta com o padre.

Era o ano de 1963. O dia ou o mês são irrelevantes; restam apenas as lembranças.


Eu e meu irmão corremos para a igreja, de mãos dadas, chorando copiosamente. Na verdade, eu não tinha real dimensão do que a morte de meu pai significava, apenas chorava. Acredito que o susto causado pela reação do meu irmão fosse maior do que o impacto da morte em si.

Sim, creio que era isso... 


Por hoje, a história está completa! Mas não termina aqui; em breve, postarei os capítulos seguintes.



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