O Equilibrista da Calçada
O Equilibrista da Calçada
Por: Comendador Cesar A Grande
A rua não é apenas um lugar de passagem; é um campo minado e um jardim secreto ao mesmo tempo. Eu caminho com o corpo dividido.
O olho esquerdo vigia a sombra que se aproxima rápido demais, o medo gelado do assalto, a mão protegendo o bolso. O instinto de sobrevivência dita o ritmo acelerado.
Mas o olho direito... ah, esse busca o milagre. Ele procura um rosto na multidão, um novo amor que possa surgir dobrando a esquina. É uma tensão elétrica.
No meio do caos, meus ouvidos filtram o barulho dos motores para encontrar a música de um salto no asfalto ou uma risada solta. Caminho tenso, mas com o coração aberto, caçando beleza no meio do perigo, esperando que o próximo esbarrão não seja um roubo, mas um encontro.
De repente, um ronco de escapamento estoura logo atrás. O músculo contrai, o sangue gela. É o predador ou apenas a pressa alheia? O vulto passa rasgando o vento — era só um entregador correndo contra o relógio. O alívio vem num suspiro fundo, e é justamente nessa brecha de silêncio que a beleza entra sem pedir licença.
Vejo alguém ajeitando o cabelo no reflexo de uma vitrine, alheio ao meu susto. Sinto o cheiro de café que briga com a fumaça dos ônibus. É essa a loucura de caminhar por aqui: a gente oscila entre o pânico e a poesia em questão de segundos.
Talvez, no fundo, a gente precise dessa tensão. O medo nos lembra que somos frágeis; o desejo nos lembra por que queremos continuar vivos.
E assim sigo, um equilibrista teimoso no meio-fio, desviando da maldade, mas mantendo o olhar aceso, pronto para transformar qualquer acaso em destino.
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