O Inventário do Sossego

 


O Inventário do Sossego

Por Comendador Cesar A Salgueiro - Janeiro de 2026 


Dizem que janeiro é o mês de "zerar" a vida, de traçar metas audaciosas e carregar o peso de novas responsabilidades. Pois eu, do alto dos meus 72 anos, peço licença para discordar. 

Não quero o novo se ele vier acompanhado de pressa. Não quero promessas se elas me roubarem o tempo de observar o voo de um passarinho ou o brilho de um sorriso sincero.

Sinto um cansaço, é verdade, mas não é um cansaço de desânimo. É o peso de quem já carregou muita bagagem e, agora, decidiu caminhar apenas com o que cabe no bolso: uma caneta, um papel e a vontade de ser feliz. 

Minha ambição hoje é uma "vidinha normal". E que luxo é esse! Ter o direito de acordar e não querer mudar nada, apenas continuar sendo esse senhor que, por dentro, ainda brinca como criança.

Minha escrita não tem compromisso com o sucesso, tem compromisso com a alma. Escrevo para ver o mundo melhor. 

Gosto de andar pelas ruas sem destino, distribuindo "bons dias" e "boas tardes" como se fossem presentes. Ver as pessoas bem, ver o comércio abrindo, o vizinho sorrindo... esse é o meu combustível.

Não me falem em produtividade. Minha produtividade agora é colher alegria. Quero viver o que me resta de vida com a leveza de quem descobriu que a paz não é o fim do caminho, é o próprio caminho. 

Se o mundo insiste em correr, eu insisto em caminhar devagar, saboreando cada encontro, cada palavra escrita e cada risada que consigo arrancar de alguém.

No fim das contas, não estou começando do zero. Estou começando do "tudo". Tudo o que aprendi me trouxe até aqui, até este momento em que a minha única responsabilidade é, simplesmente, ser paz no meio do barulho.


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