Para Aquém das Palavras


Para Aquém das Palavras

Por Comendador Cesar A Salgueiro 


Se me fosse concedido o direito a um único desejo, a um superpoder improvável, eu não hesitaria: pediria a capacidade de decifrar os labirintos da mente humana. 

Gostaria de sentir as emoções alheias em sua forma mais crua, enxergar o mundo através das retinas dos outros e mapear, com precisão, suas fraquezas e seus sonhos mais recônditos. 

Carrego comigo um oceano de incertezas; duvido até mesmo da dimensão das minhas próprias dúvidas.

Quando observo meu filho — o garoto que conheço há uma vida inteira —, pego-me imaginando o universo particular que habita seus pensamentos. Minha percepção sobre ele limita-se ao que as palavras lhe permitem expressar. Mas quem será ele, de fato, em sua essência mais silenciosa, muito para aquém do que é dito?

O mesmo ocorre quando resgato as memórias dos meus pais. Recordo-me com clareza do que via e do que ouvia, mas pergunto-me: quem eram eles na intimidade de suas próprias consciências? Será que chegaram a se conhecer de verdade, ou apenas se viam e se escutavam na superfície do convívio? 

A verdade é que, por mais que alguém fale de si mesmo, o que não transpõe a barreira dos lábios permanece um mistério absoluto — não apenas para o outro, mas, frequentemente, para a própria pessoa.

Daí nasce o meu desejo de enxergar de fora para dentro. E não adianta negar: ninguém se mostra por inteiro. Por mais que haja esforço, a revelação total é uma utopia. Ocultar fragmentos de nós mesmos não é um defeito, mas uma condição natural.

Quem é você? Quem são vocês? Quem sou eu? Quem somos nós, afinal?

Ouso afirmar que o maior e mais insondável dos mistérios é o da identidade. Partilhar uma vida inteira com outro ser humano não é sinônimo de conhecê-lo plenamente. Se alguém lhe disser o contrário, desconfie. É mentira.

Você tem certeza de quem é? Sabe realmente quem são os seus amores? E não me refiro à paixão carnal, à atração visual ou aos sentimentos declarados em falas e escritos. Refiro-me ao ser que pensa, que arquiteta, que planeja no silêncio; àquele que se oculta por instinto, guiado por um mecanismo inato de defesa e sobrevivência.

Por isso, peço: não minta para mim... afinal, eu também minto.


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