O Labirinto do Afeto Trocado

  

O Labirinto do Afeto Trocado
Por Comendador Cesar A Salgueiro 


Existe uma armadilha silenciosa no carinho. 

É aquela vontade legítima de acolher o outro, de oferecer o ombro, de dar o braço e caminhar junto porque a companhia é boa, o papo flui e a alma sorri. 

É o que chamamos de amizade — esse amor que não pede contrato, nem exclusividade, nem beijo na boca.
O problema é que o afeto é um idioma que cada um traduz como quer.

Você abre a porta, prepara o café, ouve os problemas e ri das piadas. Faz tudo com o coração escancarado, acreditando que a transparência da sua intenção é óbvia. 

Mas, do outro lado, cada gesto de cuidado é lido como um sinal de "quero algo mais". O braço que você deu para apoiar vira, na cabeça do outro, o laço que prende.

Aí começa a dança do desconforto. Você percebe o olhar que mudou, a mensagem que traz uma segunda intenção, o toque que demora um segundo a mais do que o necessário. Você tenta explicar. Com todo o jeito do mundo, você diz: "Eu gosto de você, mas é aqui que eu fico. O meu 'nós' é de amigos".Deveria ser o suficiente, mas raramente é. 

O ego ferido do outro se recusa a aceitar o carinho sem o rótulo da paixão. A pessoa passa a ver a sua amizade como um "prêmio de consolação", quando, na verdade, a amizade é o prêmio principal.

O resultado é melancólico. O que era leve vira peso. A presença, que antes era celebrada, passa a ser evitada para não alimentar falsas esperanças. E aquela pessoa que você queria tanto ter por perto acaba se tornando um estranho. 

É o paradoxo do afeto: por quererem mais do que o que você tem para dar, acabam ficando sem nada.

No fim, a gente aprende que não dá para controlar o que o outro sente, mas dá para proteger a nossa paz. É uma pena que, às vezes, para manter o respeito por si mesmo, a gente precise soltar o braço e seguir o caminho sozinho.

🌺

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

1 - A Presidência

Minhas Memórias. Capítulo 01

Minhas Memórias. Capítulo 02