Reflexões aos 72

 


Reflexões aos 72
Por Comendador Cesar A Salgueiro 


Com a proximidade do meu aniversário, começam as reflexões sobre a história que escrevi nestes últimos 72 anos.

Vejo um menino franzino, de pés no chão e roupas largas — daquelas que vêm passando de primos e irmãos mais velhos; notava-se que não tinham sido compradas para ele. 

Aquele menino solto, correndo sozinho pelas calçadas, levava um galho de árvore na mão que fazia o papel de revólver. No peito, um broche de xerife imaginário. Ele corria, olhava para trás e atirava em algum bandido, também imaginário.

A ausência dos irmãos, de amigos ou de atenção não parecia incomodar aquele garoto dentuço, que parecia saber, desde cedo, que era diferente. 

Eu era um menino que gostava de brincar com as meninas; brincávamos de "família". Eu era o marido e o pai; elas, a esposa e as filhas. Na fantasia, eu bebia e brigava com a esposa e as filhas; era durão, do tipo "machão". A esposa fazia comida e varria a casa imaginária naqueles degraus que levavam à residência de uma delas — era o retrato do que eu via acontecer na minha própria casa.

Quando voltava para casa, ficava vigiando meus pais, esperando pela próxima briga. Eu sempre me metia, na tentativa de fazer com que se entendessem — e eu tinha apenas uns 7 ou 8 anos. 

Foram aqueles anos iniciais que transformaram minha pele em couraça e minhas emoções em razão. Eu precisava ser aquele xerife e não podia contar com ninguém, a não ser com o meu cavalo branco com manchas marrons. Sim, era assim que eu via o meu cavalo enquanto brincava.

Naquela mesma época, entre os meus 7 e 9 anos, entendi que não adiantava fazer planos; eu tinha que viver um dia de cada vez e ficar de olhos abertos para as oportunidades e experimentá-las.

Hoje estou aqui. Não planejei o que conquistei — na verdade, sinto que não conquistei nada. 

Tudo o que me cerca não me pertence; a única coisa que é minha de verdade é a vida, e ainda assim, com reservas.

Acredito em família e sempre sonhei em ter uma, mas não foi assim que as coisas aconteceram para mim, e ninguém tem culpa. 

Hoje, guardo apenas gratidão a Deus e aos amigos que surgiram na minha estrada. Aquele menino cresceu, caiu, levantou-se, recuperou-se das tormentas que enfrentou e se tornou um homem.

Que bom poder viver a vida — a minha vida. Escolher meus amigos, meus irmãos e minha família… Ser livre para gostar, ou não, do sangue (amigo ou não amigo). 

Pois é, os 72 anos estão batendo à porta e, de uma forma diferente, trazem de volta a infância, a juventude e a maturidade necessárias para aceitar, entender e tolerar.

Esse aí sou eu: ainda incompleto, mas cheio de gratidão.

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