O Silêncio, O Lixo e a Pisadinha.
Dizem que a liberdade é um estado de espírito, mas, em Benfica, ela tem um CEP muito bem definido e muros que não negociam. Passei dez dias ali.
Dez dias que cabem em uma vida inteira se você souber medir o tempo pela velocidade com que as páginas de um livro passam.
Por uma questão de segurança, o meu palco era solitário. Ninguém dividia a cela comigo. Era eu, meus pensamentos e o vazio de um cubículo que, ironicamente, me entregou um tesouro: um livro abandonado no lixo. No meio do descaso, a literatura.
Limpei a capa, sacudi a poeira do abandono e fiz dele meu interlocutor. Enquanto o mundo lá fora seguia seu curso, eu mergulhava em letras que alguém, em algum momento de desespero ou tédio, decidiu que não serviam mais. Para mim, foram o ar que faltava.
O curioso de estar ali é que o silêncio nunca é absoluto. As paredes de Benfica são vizinhas da vida pulsante da comunidade. E a vida ali tem ritmo: a pisadinha.
O grave vibrava no concreto, o teclado frenético atravessava as grades e trazia um eco de festa, de churrasco na laje, de gente que dançava enquanto eu contava as horas. Era um contraste surreal — o isolamento forçado versus a alegria barulhenta do vizinho. Eu lia sob o compasso do piseiro.
Nesse intervalo de mundo, descobri que o uniforme não apaga o homem. Meus dias foram facilitados por quem, teoricamente, deveria ser apenas a mão do Estado. Os carcereiros se tornaram amigos. Não houve o peso da hostilidade, mas a leveza de um tratamento humano, digno, que se estendeu até o momento em que a liberdade condicional finalmente assinou meu nome na saída.
Saio sem mágoas do sistema, mas com uma observação de quem sentiu o gosto do cotidiano: “pelo valor que se paga, o prato de um preso deveria ter mais dignidade. A conta da alimentação é alta, mas o sabor que chega à mesa é raso.”
É o único ponto onde a estrutura parece esquecer que, por trás das grades, ainda existe paladar e necessidade.
Deixo Benfica com o som da pisadinha ainda ecoando na mente e a certeza de que, às vezes, é no lixo de uma cela que a gente encontra a página que faltava para entender a própria história.

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