O Elogio do Vazio

O Elogio do Vazio

Por: Comendador Cesar A Salgueiro 


Dizem que a natureza abomina o vácuo, mas hoje eu decidi convidá-lo para um café. 

Estou diante de uma folha branca que me encara com a mesma intensidade com que encaro a parede. Não tenho uma tese, não tenho uma notícia urgente, não tenho sequer uma opinião formada sobre o barulho do mundo lá fora. Tenho apenas o nada.

E, curiosamente, o nada é um lugar muito preenchido.

Quando a gente se permite parar de "fazer", a gente finalmente começa a "ser". É um verbo difícil, quase esquecido em tempos de produtividade frenética. 

Percebo, então, que o ar que entra no meu pulmão não pede licença nem currículo; ele apenas flui. O oxigênio é o único texto que realmente importa agora.

Olho pela janela e vejo o movimento descompromissado da vida. 

O vento balança a copa das árvores com um desleixo invejável. 

Se a natureza não se obriga a dar frutos o ano inteiro, respeitando suas estações de dormência, por que eu haveria de me obrigar a dar palavras a todo instante?

Escrever sobre o nada é, na verdade, celebrar a liberdade de não ser útil por alguns minutos. É entender que o silêncio não é ausência, mas uma presença que a gente desaprendeu a escutar. É trocar o peso da caneta pela leveza de apenas observar uma formiga no chão ou o desenho das nuvens que se desfazem antes mesmo de ganharem nome.

Brincar com o tempo é o melhor brinquedo que existe. Ver a luz mudar de posição no chão da sala, sentir o cheiro da terra ou simplesmente fechar os olhos e perceber que, mesmo na quietude total, o coração continua batendo seu bumbo solitário e fiel.

Se hoje a minha única produção for um suspiro profundo e estas poucas linhas sobre o vazio, já terá sido muito. Afinal, para que as estrelas apareçam, é preciso que o céu não tenha nada além de escuridão. 

O nada não é o fim; é o espaço onde tudo começa a respirar.  🌺

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