Minhas Memórias capítulo 03



Capítulo 03 - A Praia

Por: Comendador Cesar A. Salgueiro


Todos os domingos de sol, Dona Izilda — uma vizinha, esposa do dono do bar onde eu almoçava diariamente — reunia umas seis crianças da rua e as levava para a Praia do Galeão, na Ilha do Governador. É claro que sempre com a devida autorização dos pais.


Ela preparava um farnel caprichado com sanduíches de mortadela, salaminho e queijo, além de frutas como bananas e maçãs. Passávamos o dia na praia, fazendo um verdadeiro piquenique. Próximo de onde ficávamos, havia um bar onde ela comprava litros de Coca-Cola e pronto: a festa estava feita! Ela patrocinava todas as despesas, inclusive as passagens de ônibus. Isso mesmo, íamos de transporte público.


Como eu era uma das crianças que acompanhava Dona Izilda todos os domingos, conhecia de cor o trajeto e a condução que deveria tomar. Por isso, não foi difícil decidir ir à praia sozinho. Andei até a Rua São Luiz Gonzaga e, depois de algumas subidas e descidas, peguei o ônibus para o Galeão. Ao chegar na Ilha do Governador, dei o sinal de parada próximo ao terceiro ponto e desci. Estava na praia; era só aproveitar! Eu me sentia muito tranquilo e seguro; aquela aventura não me abalava.


Lá na praia, embora estivesse calmo, senti-me muito só. Não havia com quem brincar e a areia estava vazia. Foi aí que inventei um amigo invisível. Ele tinha a minha idade, dez anos, e era "gente boa". Estava sempre comigo e me aconselhava quando eu precisava. Era muito inteligente e tinha resposta para tudo. Esse amigo me acompanhou por anos, creio que até a minha vida adulta. Nunca mais me senti só. Depois de criá-lo, consegui me divertir: corria, jogava água e areia ao vento, sendo o mocinho ou o bandido da minha própria imaginação.

Na hora do almoço, fui até o bar e fiz um lanche. De tão distraído, gastei o dinheiro da passagem de volta. Foi quando me deparei com o meu primeiro grande problema:


— "Como voltar para casa sem dinheiro?"


Pensei muito e, em alguns momentos, o medo bateu. Comecei, então, a conversar com o tal amigo invisível. Ele me ouvia e concordava com todas as minhas ideias. Eram muitas, mas houve uma que ele gostou bastante e achou viável:

Eu pegaria o ônibus e ficaria sentado no banco de trás até chegar bem próximo de casa, de onde pudesse seguir a pé caso fosse posto para fora da condução. Quando chegasse o momento certo, diria a verdade ao cobrador: que estava sem o dinheiro da passagem. Depois, era rezar para dar certo. Assim fiz.


Quando dei a notícia ao cobrador, ele imediatamente deu o sinal de parada e pediu ao motorista que abrisse a porta de trás. O homem foi muito legal; reclamou um pouco, mas me deixou sair. Deu certo: eu estava perto de casa.

Naquele dia, matei aula, fui à praia sozinho e ainda viajei de graça. Um segredo guardado a sete chaves. Minha mãe nunca soube e sequer desconfiou da minha "arte". Acho que nem notou o meu bronzeado de sol.


Na verdade, ela se preocupava muito mais com os meus irmãos — pelo menos era o que eu pensava na época. A fixação dela por eles me deixava irritado, chegando a despertar ciúmes.


Meu irmão do meio, o que morava com a gente, tinha habilidades especiais. Ele desmontava os meus brinquedos e, com as peças, construía réplicas em miniatura de lanchas que flutuavam e tinham até motor; criava motocicletas com movimentos nas rodas e no guidão; caminhões basculantes iguaizinhos aos de verdade. Enfim, o cara era um gênio, mas não me deixava brincar com as miniaturas. Ele destruía os meus brinquedos, preservava os dele e me proibia de tocar no que ele produzia com as minhas peças. Se eu pegasse algo escondido, ele me batia — era três anos mais velho e bem mais forte.


Apesar de tudo, ele era uma espécie de ídolo para mim. Mesmo não gostando de me ter por perto, cuidava da minha integridade. O fato de eu aceitar aquele sentimento de rejeição como algo natural me isolava; eu achava que não merecia fazer amigos. Meu irmão era o oposto: carismático, bonito, forte e, embora baixinho, brigava bem e era cheio de amigos.


Eu era um "esquentadinho", folgado e frouxo. Como não tinha amigos da minha idade, ia provocar os dele. Quando eles se irritavam e vinham me bater, meu irmão me defendia e batia nos próprios amigos. Eu adorava aquilo, achava genial; amava ver meu irmão brigando para me proteger. Eu o admirava profundamente.


Tivemos poucas oportunidades de brincarmos juntos. Certa vez, ele construiu um carrinho de rolimã. Enchi tanto a paciência dele que ele, finalmente, me deixou usar o carrinho para descer a ladeira onde morávamos...


Continua… logo teremos o próximo capítulo.

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