Minhas Memórias. Capítulo 04
Capítulo 4 - As Mudanças
Por: Comendador Cesar A. Salgueiro
Nós morávamos perto do Morro do Tuiuti, em São Cristóvão.
Era comum vermos uns garotos daquela comunidade circulando pelas ruas do bairro; eles se intitulavam “Patota do Marocas”. Tinham todos eles em torno de 12 a 14 anos de idade.
Todas as crianças da rua tinham medo deles, pois tomavam seus brinquedos e batiam nos meninos quando os pais não estavam por perto. Eles agiam sempre em grupo.
No dia em que meu irmão me deixou brincar com o carrinho de rolimã que ele havia feito, os meninos da “Patota” surgiram e começaram a me importunar e ameaçaram pegar meu carrinho — digo, o carrinho do meu irmão.
O Marocas foi o mais abusado; era o chefe da Patota, protegido pelos demais amigos, e me tomou o brinquedo na marra.
De longe, meu irmão assistia a tudo e, num piscar de olhos, eis que ele surge em meu auxílio. Já chegou batendo nos meninos; ele bateu nos cinco, um de cada vez. Eu peguei o carrinho e saí correndo. Quando olhei para trás, meu irmão já vinha correndo também e gritava:
— Corre, corre!
Entramos no prédio e trancamos a porta por dentro. Os meninos da Patota começaram a jogar pedras nas vidraças da janela e só pararam quando os vizinhos os expulsaram de lá. Eles foram embora, mas ameaçaram se vingar.
Meu irmão, mais uma vez, foi meu herói. Eu tinha um baita orgulho dele. Pena que na maior parte do tempo estávamos brigando, acho que por culpa do meu gênio.
Eu comecei a ter uns sonhos recorrentes. Em um deles, eu caía pela janela, caía e caía e nunca chegava ao chão; antes de tocar o chão, eu acordava muito assustado. Por várias vezes, tive que ser acudido pela minha mãe.
E aí... os militares assumiram o governo do Brasil.
Meu irmão, o mais velho, foi aquartelado não sei o porquê. Ele era batedor motociclista da Aeronáutica; era um dos melhores, bom mesmo. Por alguma razão, ficou preso um bom tempo no quartel da base aérea do Galeão.
Minha mãe ia visitá-lo e me levava com ela. Eu não gostava de andar naqueles ônibus cheios e com gente fumando; eu ficava enjoado e, por várias vezes, vomitei de tão mal que fiquei.
Parávamos, eu e minha mãe, na calçada e meu irmão dentro do quartel. Entre nós existia uma tela tipo galinheiro. Os dois conversavam muito e depois voltávamos para casa.
No caminho, o cenário era o de uma guerra: caminhões do exército, soldados armados, tanques de guerra, jipes, barricadas feitas com sacos de areia. Eu não entendia o que estava acontecendo; tinha medo, mas achava emocionante.
Sem que eu esperasse, nos mudamos para a casa de um tio rico, irmão da mamãe. Eles moravam em uma mansão no Jardim Botânico, próximo à recém-inaugurada TV Globo. Pelo menos ficamos livres da tal vingança da Patota do Marocas.
Minha tia era muito chique e de uma elegância cinematográfica. Ela foi uma das tias que se ofereceram para ficar comigo lá no velório do papai, lembram?
Eu gostava dela e mais ainda do meu tio. Ele tinha três covinhas, uma no queixo e duas nas bochechas; quando ria, transmitia uma paz e uma alegria indescritíveis. Ele era super espontâneo.
Minha tia adorava me levar com ela para todos os cantos onde ia. Ela gostava da minha companhia, mas eu não estava acostumado com tanta atenção, com tantos compromissos, e aquilo começou a me incomodar.
Ah, ainda tinha o cachorro poodle. Minha tia me mandava passear todas as tardes com o cachorro. Eu achava aquele cachorro um fresco; ia a cabeleireiro, veterinário, sei lá mais o quê, cheio de cuidados.
O bicho não podia ver a coleira: abanava o rabo, corria para lá e para cá, não se segurava de tanta alegria. Eu detestava passear com o cachorro.
"Como me livrar daquele incômodo?", pensei.
Quem me ajudou a encontrar uma solução foi meu amigo invisível, mais uma vez.
Todas as tardes eu tinha que levar o cachorro para passear. Foi quando comecei a puxar o cachorro com violência, brigar com ele, correr que nem um louco. Não o deixava fazer as necessidades dele com tranquilidade. Transformei a alegria dele em um imenso terror, ao ponto de ele passar a se esconder, ganindo de medo ao ver a coleira.
Meu Deus, eu era uma pestinha!
Minha tia não deve ter gostado nada daquilo. Não falou nada sobre o assunto, mas parou de me pedir para passear com o poodle.
Acontece que, após a morte do papai, eu me tornei independente precocemente. Fiquei um bom tempo sem ninguém para me controlar, para mandar em mim, sem obrigações, a não ser estudar.
Morar com meus tios mudou tudo na minha curta vida. Não me adaptei a toda aquela atenção. Eu, praticamente, não via mais minha mãe. Meu irmão saía com meus primos, ia à praia e sei lá mais aonde, e eu ficava com toda a atenção da tia. Eu não estava feliz; eu queria minha liberdade de volta.
Minha tia me matriculou no Colégio Estadual André Maurois, que ficava próximo de casa e do Jóquei Clube da Gávea. Foi lá que iniciei o ginasial. Verdade, com 10 anos de idade eu estava cursando o primeiro ano ginasial.
Eu não gostava dos alunos de lá. Eu me sentia inferior: todos tinham pais e moravam em suas casas, e eu não tinha nada, nem mesmo minha liberdade. Não fiz nenhum amigo nos poucos dias em que estudei naquele colégio.
Sim, por sorte durou pouco.
Dias depois, mudamos novamente. Desta vez para Paquetá, uma ilha no meio da Baía de Guanabara: águas mansas e claras, lugar sossegado e de ótima vizinhança. Meus tios emprestaram sua casa de veraneio, toda mobiliada, para que fôssemos morar lá.
"Devíamos estar incomodando muito", pensei.
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Continua… breve o próximo capítulo.

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