Minhas memórias capítulo 05

  

 
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Capítulo 05 - Teresópolis

Por Comendador Cesar A Salgueiro 


Antes de falar sobre Paquetá, vou retornar no tempo, até uns meses após a morte do papai; espero que entendam.

Logo nas primeiras férias após a morte do papai, minha mãe me mandou para a casa de uma tia que morava em Copacabana e tinha uma casa de campo em Teresópolis. Ela também tinha um filho da minha idade, e nós iríamos passar as férias na montanha.

Acredito que a intenção da mamãe era a de reorganizar a própria vida. Após a morte do meu pai, ela ainda não tinha tido tempo para decidir o que, e como, faria para nos criar sozinha.

Minha tia era uma mulher apaixonante: falava alto, dava risadas deliciosas, dançava em qualquer lugar onde tocasse uma música e era uma alegria só. Ela me tratava do mesmo jeito que tratava o filho, meu primo: como irmãos de verdade.

Já no primeiro dia, nos levou para comprar roupas e acessórios que usaríamos no sítio. Comprou duas camisas de mangas compridas xadrez, duas calças jeans faroeste e dois pares de botas — tudo igual, com a diferença apenas das cores das camisas. Um desses jogos era para mim e o outro para meu primo.

Na manhã seguinte, seguimos para Teresópolis no seu Mercury conversível, um carro grande, de cor grená, que foi com a capota levantada até o destino, pra mim era como se o mundo todo coubesse naquele carro.

Foi muito divertido! Eu, que nunca tinha viajado, fiquei deslumbrado com o passeio. Passamos entre as nuvens e vimos animais que eu só havia visto em revistas e na televisão. Minha tia estava muito feliz, e aquilo contagiava a todos no carro. Éramos minha tia, meu primo, minha prima e eu; meu tio estava trabalhando e iria se encontrar com a gente no final de semana.

Chegando ao sítio, tinha um boi no terreno. Eu nunca tinha visto um bichão daquele tamanho de tão perto. Ele invadiu a cerca viva e foi pastar no gramado da casa da minha tia. Eu fiquei alucinado com aquela cena! Minha tia me pegou no colo e me fez passar a mão no lombo do animal. 

Eu e meu primo escorregávamos no morro de barro, andávamos de bicicleta, escalávamos morros, andávamos de patins, brincávamos na piscina de uma vizinha, tomávamos banho juntos… Era uma alegria só. Ele não era só meu primo; aquele menino era o irmão que eu queria ter, meu amigo, o único amigo de verdade. Essas férias se repetiram duas, três ou quatro vezes, e depois nunca mais.

Em uma dessas férias, causei um  prejuízo à minha tia. Quebrei a vitrola que ficava na sala do sítio e deixei meu primo levar a culpa. Estávamos nos divertindo, dançando ao som de rocks e baladas — ora com primas, ora com tias — quando resolvi trocar o disco. Devo ter mexido em algo que não devia (nunca tinha visto uma vitrola antes) ela não funcionou mais. Meu primo correu para me ajudar e foi quando minha tia percebeu o que havia acontecido, consequentemente foi ele que levou a culpa.

Claro que foi sem querer, mas, quando vi a bronca e a surra que minha tia deu no filho, fiquei com tanto medo que me calei. Meu primo ficou de castigo no quarto e a festa acabou. Minha tia ficou inconsolável pela surra que deu nele. 

No dia seguinte eu conte a verdade pra ela, que eu tinha quebrado a vitrola… Climão!
Não sei, mas me pareceu que todos começaram a me tratar de forma diferente. Aquela foi a primeira vez que rezei para que as férias acabassem rápido. 

Nunca mais me chamaram, eu fiquei traumatizado, o meu complexo de rejeição explodiu. Nada me importava mais e a partir daquele momento resolvi me isolar, não depender mais  da aceitação externa. Mas o amor por aquela tia nunca diminuiu.

Hoje sinto que me pareço mais com ela do que com a minha mãe: eu falo alto, gosto de rir, minhas gargalhadas são escandalosas, ando cumprimentando todos, conhecidos ou não, gosto de dançar enfim, eu sou a minha tia.

Vinte anos depois, no ano 2000, fui dirigindo até o sítio em Teresópolis. Eu queria vê-la, contar a minha história, falar das homenagens que recebi, da minha candidatura a deputado estadual, da minha Comenda.
Quando criança, ela dizia que eu seria uma pessoa bem sucedida. Na mesa, no sítio, ela dizia que eu ia me tornar um político.

Foi uma pena tê-la encontrado doente, com o mal de Alzheimer. Ela não me reconheceu e eu não tive oportunidade de contar a ela a minha história. O consolo foi que pude rever o belo sorriso em seu lindo rosto de mãe.

Passado um tempo veio a notícia do seu falecimento.
🌺

Breve mais um capítulo…

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