Minhas memórias. - Capítulo 06



PAQUETÁ: O Gosto da Liberdade

Por Comendador Cesar A. Salgueiro

Então... fomos morar em Paquetá.

Naquela época, minha vida era medida pelas águas. Deixei o Colégio André Maurois, na Gávea, e fui parar no Souza Aguiar, no Centro do Rio. O cenário era curioso: o colégio ficava bem em frente ao antigo IML, na Rua dos Inválidos. Para muitos, um lugar sombrio; para mim, era apenas o meu caminho. Minha mãe trabalhava ali perto, na Mem de Sá, em uma loja de automóveis de um primo nosso. Era o meu porto seguro. Eu atravessava o IML, muitas vezes driblando a realidade da morte, para buscar com ela o dinheiro do cachorro-quente do Bob’s. Nem sempre ela podia, mas o desejo por aquele sabor fazia parte da minha rotina.

A Solidão das 5 da Manhã

Viver em Paquetá exigia um sacrifício que hoje parece impensável. Eu acordava às 4h30. Enquanto a maioria descansava, eu já estava a caminho das barcas. Precisava pegar a das 5h para não perder a primeira aula. A viagem durava duas horas — um tempo de espera e reflexão para um menino.

Lembro-me da ilha naquelas madrugadas: o breu absoluto, rompido apenas pelo prateado da lua refletido no mar. Não havia barulho, só o som das marolas lambendo a areia. Eu caminhava sozinho, sentindo-me o dono daquele silêncio. Era uma paz que me moldou.

A chegada na Praça XV nem sempre era fácil. Às vezes, a ressaca do mar tornava a atracação um desafio, uma luta contra as ondas. Depois, ainda vinte minutos de caminhada a pé. O Rio de Janeiro daquele tempo me permitia isso: caminhar por ruas desertas, com o comércio fechado, sem sentir medo. Havia uma segurança que se perdeu no tempo.

O Paraíso sem Amarras

Foram três anos adoráveis. Eu me sentia criança e, ao mesmo tempo, um homem livre. Ninguém me controlava. Na volta, chegava à ilha por volta das 15h e a bicicleta passava a ser a extensão das minhas pernas.

Estudar? Eu tinha facilidade, era inteligente e, sem ninguém para me vigiar, a liberdade falava mais alto que os livros. Eu queria o sol, a ilha, o meu "amigo invisível". Aquele era o meu paraíso particular.

O Batismo no Iate Clube

Nossa casa ficava de frente para o Iate Clube. Como meu tio fora um dos fundadores, eu e meu irmão tínhamos livre trânsito. O mar era o nosso quintal. Havia um trampolim na varanda do restaurante de onde os meninos saltavam, nadando depois até uma escada de cimento.

Eu era o observador. Ficava ali, debruçado na grade, de roupa e tudo, fingindo que não me importava. Por timidez, menti. Disse que sabia nadar para não ser diminuído pelos outros. O castigo veio em forma de um empurrão: caí na água com tudo. Naquele pânico de um segundo, onde a mentira quase me custou caro, o instinto falou. Nadei "cachorrinho" até a escada. O susto virou orgulho: — "Eu sei nadar!". A partir dali, o mar deixou de ser uma barreira e virou meu parque de diversões.

Conflitos e Irmandade

Mas a vida na ilha também tinha seus espinhos. Um rapaz mais velho, que já guardava rancor de uma briga antiga na lancha, resolveu se vingar. Ele me pegou de surpresa perto da minha bicicleta — que em Paquetá ficava solta, sem cadeados, tamanha era a confiança entre as pessoas.

Ele era maior, e eu acabei levando a pior. Mas eu tinha a quem recorrer. Corri ao clube, onde meu irmão treinava judô, e pedi socorro. Ver meu irmão saindo em minha defesa, enfrentando o garoto de igual para igual, trouxe uma sensação de justiça. Nossos mundos eram diferentes, e ele nem sempre demonstrava gostar da minha companhia, mas naquele momento, o laço de sangue falou mais alto.

O Adeus Forçado

Paquetá era o meu lugar no mundo. Por isso, quando minha mãe anunciou que mudaríamos para um conjugado em Botafogo, o chão sumiu. A desculpa da praticidade — morar perto do trabalho e do estudo — não fazia sentido para mim.

Eu estava perdendo meus amigos, minha bicicleta, meu mar e, principalmente, a minha liberdade.

— “De novo?!” — perguntei, revoltado.

Eu não queria a facilidade da cidade; eu queria a alma da ilha. Mas o destino, como as ondas da barca, não me pediu licença para seguir viagem.

Continua… em breve, mais um capítulo. 🌺

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