Minhas Memórias capítulo 07
Capítulo 7 - Botafogo (1ª vez)
O apartamento era pequeno, com dois cômodos conjugados.
Na cozinha, só cabia um fogão de 4 bocas, e a geladeira ficava na sala.
No banheiro, havia uma banheira, um aquecedor, um vaso sanitário e uma pia.
O prédio tinha um elevador e dois apartamentos por andar, e ficava na esquina da Rua General Góis Monteiro com a Lauro Sodré, de frente para o Botafogo Futebol e Regatas e para um posto de gasolina. O edifício se localizava entre o Túnel Pasmado e o Túnel Novo.
Atravessando o Túnel Novo, chegávamos a Copacabana, na Avenida Princesa Isabel.
Atravessando o Túnel Pasmado, chegávamos ao Aterro de Botafogo.
Naquela época, estavam construindo o Canecão, que ficava bem perto de casa.
O shopping Rio Sul ainda não existia; no terreno, funcionava um boliche.
A nossa rua era estreita, de paralelepípedos, mão dupla e, de um lado, ficavam uns casarões antigos e, do outro, alguns prédios residenciais.
Quando entrei no apartamento do segundo andar, ele já estava montado. Não me lembro de como foi a mudança, na verdade, não tenho muitas lembranças desse período.
Eu dormia na cama superior de uma beliche, que ficava bem perto de um janelão. Na cama de baixo, dormia meu irmão, e minha mãe dormia em um sofá na sala. Os cômodos eram divididos por uma cortina.
Meu passatempo, depois de chegar do colégio, era ficar na janela anotando o número dos ônibus circulares que passavam pela rua.
Em frente ao nosso prédio havia um ponto de ônibus, e cheguei a contar de 12 a 15 ônibus por cada linha circulando por ali. Minha mãe chegava por volta das 18h30, cuidava do jantar e do almoço do dia seguinte.
Para um menino que viveu os últimos meses solto em uma ilha, descalço, andando de bicicleta e mergulhando no mar, aquela realidade me parecia uma prisão, igual àquelas dos seriados do Batman e do Super-Homem.
Como passatempo adicional, resolvi me reaproximar do meu primo, filho da minha tia de Teresópolis. Eles moravam em Copacabana, perto da Rua Santa Clara, no décimo andar de um prédio ao lado do Cine Metro.
Era bem perto de onde eu morava, cerca de 10 minutos de ônibus circular. Eu só precisava do dinheiro das passagens e era craque em economizar.
Minha tia me recebeu super bem, e comecei a frequentar a casa deles. Minha mãe não se incomodava. Eu tinha a sensação de que ela não ligava para o que eu fazia.
Quando nos encontrávamos, eu e meu primo andávamos pelas ruas do bairro com um maço de cigarros no bolso e fumando escondidos.
Era uma das nossas brincadeiras favoritas. Tínhamos, então, de 12 para 13 anos.
Lembro que em uma das vezes em que minha tia nos levou à praia, compramos escondidos um maço de cigarros e o colocamos, junto com uma caixa de fósforos, dentro de um saco plástico para não molhar. Pegamos, cada um, a sua prancha de isopor, daquelas de "tirar jacaré", entramos no mar e fomos fumar depois da arrebentação das ondas. Ficávamos sentados na prancha, boiando, fumando e olhando o povão na areia... coisa de maluco.
Outras vezes, pegávamos as chaves do Mercury da minha tia e íamos brincar no carro dela, que ficava na garagem. Fazíamos tudo isso escondidos, inclusive do porteiro. Mas nem sempre as brincadeiras eram tão inocentes.
Uma vez, numa tarde em que a tia não estava em casa, pegamos alguns ovos na geladeira e começamos a jogar pela janela nas pessoas que estavam na fila do cinema, lá embaixo, no Metro Copacabana.
O apartamento ficava num andar alto (décimo andar), e achávamos difícil alguém nos descobrir. Para não sermos pegos, atirávamos os ovos da janela e nos abaixávamos. A curiosidade era tanta para ver o estrago causado na fila que não resistíamos e colocávamos a cabeça para fora da janela. Foi num desses momentos que o porteiro do edifício nos viu.
O tumulto na calçada era grande; algumas pessoas eram atingidas pelos ovos e outras pelos respingos que caíam no chão. Todos olhavam para o alto, tentando descobrir de onde vinham os ovos. O porteiro também estava lá.
— "Estamos fritos!", pensei, com medo do que poderia acontecer se o porteiro contasse para a minha tia.
Eu gostava de estar com meu primo. Aprontávamos muito. Eu topava qualquer novidade que ele inventava; não me lembro se eu inventava alguma coisa também. Nunca fui santo, mas éramos fiéis um com o outro. Minha tia chegou e logo abriu a geladeira para conferir os ovos que faltavam.
— "Ferrou! O porteiro contou para ela!", pensei.
Olhei para meu primo, ele saiu correndo e entrou no quarto dele. Corri atrás, e ficamos esperando o que viria, os dois morrendo de medo. Minha tia era maravilhosa demais. Ela deu uma bronca, sim, mas não foi tão cruel como esperávamos. Me mandou para casa na mesma hora e eu fui. Não sei o que aconteceu com meu primo depois que saí.
Aos domingos, íamos ao cinema, na matinê, assistir aos desenhos do Tom & Jerry. Era muito divertido, tão divertido que eu nem sentia a falta de Paquetá.
O colégio era o mesmo de quando morávamos em Paquetá: o Colégio Estadual Souza Aguiar, no centro da cidade. Eu não precisava acordar tão cedo como em Paquetá: levantava às 6 horas da manhã, me arrumava com calma e dava tempo de assistir à primeira aula às 7h30.
Às vezes, ao voltar do colégio, esbarrava com manifestações estudantis no Largo da Carioca. Estávamos em pleno regime militar. Era um monte de soldados de um lado da Avenida Rio Branco e outro monte de estudantes armados com paus e pedras do outro. No meio, muita fumaça de gás lacrimogênio.
Eu ficava com medo e me escondia nas lojas do Edifício Central ou na obra da Caixa Econômica Federal que estavam construindo na Avenida, até a confusão acabar.
Eu saía do colégio, que ficava na Rua dos Inválidos, e atravessava a pé a Avenida Chile, pois gostava de pegar o ônibus na Praça XV e de passar no escritório da mamãe que ficava no meio desse caminho. Eu fazia esse trajeto com alguns colegas e achava muito divertido.
Minha mãe havia mudado de emprego. Não estava mais ao lado do IML; ela agora estava trabalhando como secretária em um escritório de advocacia de um primo nosso, que ficava na Rua México, próximo ao Largo da Carioca e no meu caminho para casa.
A Avenida Chile era um morro. Não existiam construções no entorno. Estavam terminando de construir a Catedral, um prédio vistoso, redondo e enorme. Alguns amigos ficavam pelo caminho e eu acabava descendo o morro sozinho.
Parecia que as coisas estavam se encaixando. Tudo ia muito bem: nas manhãs eu estava no colégio, nas tardes com meu primo em Copacabana e à noite em casa, assistindo à TV preto e branco.
Foi assim até que a notícia chegou como uma bomba: íamos mudar de endereço novamente, desta vez para Bonsucesso, para a casa do meu irmão mais velho, casado e com três filhos pequenos.
— "Mais uma vez, lá se vão os meus amigos e o meu primo também",… reclamei, cansado de perder amigos.
Continua…. Breve mais um capítulo
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