O Nojo Delicioso do Apego
Crônica…
O Nojo Delicioso do Apego
Por Comendador Cesar A Salgueiro
Eu fico imaginando como deve ser bom ter alguém para quem correr buscando aquele abraço gostoso de sangue, de calor, de cheiro. Eu não tenho e acho que nunca tive. Eu juro que tento lembrar de algo parecido com isso, mas não consigo encontrar essa imagem nas linhas escritas da minha história de vida.
Ao mesmo tempo em que imagino a cena, me vem um temor de que esse apego me torne prisioneiro desse sentimento que para mim se apresenta como jugo, canga, sujeição, coação, coerção. Eu não me imagino sob o domínio de seja lá o que for, quem for, só do tempo, da morte, das forças do universo que me esculpiram do jeito que sou.
Eu não tenho asas, mas consigo voar, é sério. Eu consigo ser livre até para sofrer, sem as preocupações que os sentimentos impõem à gente.
Eu lembro do meu pai com muito carinho; não o conheci o suficiente para julgá-lo, mas foi o suficiente para amá-lo muito. Não tenho mais nada dele a não ser isso, e me basta. Eu lembro da minha mãe com amor e admiração pela mulher e mãe que foi para mim, sim, para mim.
Não tive oportunidade de conhecê-la, era uma operária ocupada em alimentar duas famílias: a sua e a do filho mais velho. Mas nunca me faltou nada, a não ser a intimidade, e sou grato por isso. Graças às ausências, eu me tornei independente e suficientemente forte para desembaraçar os nós que ela deixou para mim no meu debut na vida produtiva.
Sim, deve ser muito bom ter para quem correr, abraçar, chorar no ombro e recuperar a própria estima. Mas, e o preço?
Tive um grande amor que cuspia na minha língua enquanto fazíamos sexo. Ela não só cuspia, como também mordia. Doía, sim, era um nojo delicioso de bom. Éramos soltos, jovens loucos, não tínhamos medo e nos aventurávamos em tudo que parecia louco para aquela sociedade hipócrita dos anos 70. Fazíamos amor nos últimos assentos dos ônibus de viagem e achávamos graça daquilo.
Ela se foi e me deixou a dor. Aquela era a dor da sujeição, da submissão, do apego ao que nunca existiu de verdade.
A vida é isso, uma coisa tão real, reinventada pelo ser "humano" de forma tão imbecil, tão mentirosa.
Eu sinto que seria muito legal saber da certeza de um colo no horizonte difícil nos momentos cruéis, mas a dor desse apego seria um preço muito além do qual, acho, estou disposto a pagar.
Cá estou à disposição do julgamento das pessoas, dos castigos que a vida achar que mereço, mas sou livre até para isso, para receber com gratidão os afagos dolorosos, ou não, que esta minha versão no mundo merecer.
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