Eu vivi uma história de amor
Eu vivi uma História de Amor
Por Cesarsalg
Eu sempre soube que para contar uma história real, é necessário que a desconstruamos antes.
Eu queria contar alguma coisa bonita que aconteceu na minha vida, mas é claro que as coisas que machucam permanecem vivas por mais tempo; as boas se perdem no espaço e no tempo, e esquecemos delas rapidamente.
Para poder contar esta história, eu a deslocarei do contexto e criarei uma nuvem branca que aos poucos vai se desfazendo; tentem imaginar dessa forma.
Quando a nuvem se desfez completamente, eu estava subindo uma escada do tipo caracol; o lugar era escuro e bastante movimentado…
… Eu estava me divertindo muito com alguns amigos, e seguíamos para o restaurante da boate que ficava no andar superior ao da pista de dança. A boate era super badalada e ficava no Leblon, Rio de Janeiro. Ao final da escada havia um lounge e logo em frente uma porta dupla de madeira envernizada. Podíamos ouvir perfeitamente o som que vinha do salão inferior, e o ambiente era esfumaçado pelos cigarros dos frequentadores.
Ao abrir a porta, eu estava completamente distraído, e esbarrei com aquela menina.
O meu olhar foi arrebatado pela brancura daqueles dentes perfeitos, encaixados simetricamente naquele rosto moreno, lindos. E aqueles olhos? !!!… Eram de uma pureza imaculada… fiquei atordoado.
Sem saber o que dizer, murmurei no ouvido dela se “todo aquele sorriso era pra mim?”. Em seguida, me arrependi. Parecia uma cantada; na verdade, foi uma cantada inesperada, para os dois, e uma cantada horrível, por sinal.
Naquele momento, foi como se não existisse mais ninguém ali, só eu e ela. Não havia música, fumaça, amigos, porta; o universo parou para registrar aquele momento mágico, só nosso.
Os amigos entraram e se acomodaram em torno de uma mesa. Iniciaram uma batalha de guardanapos de papel amassados em forma de bolinhas; a vítima era eu, óbvio… Eles notaram, todos notaram o meu sem-jeito, sabiam que aquela mulher havia mexido comigo. Ela também percebeu e riu muito.
Ela falou alguma coisa que eu não entendi, mas que, vindo daquela boca vermelha, só podia ser poesia.
Minha vontade era calar aquela boca com um beijo, mas aí eu perderia a oportunidade de vê-la falar… Não era uma miragem, era real.
Ela seguiu o seu caminho e eu me sentei com os amigos que não paravam de me zoar.
Meu pensamento estava lá na pista de dança, onde provavelmente a morena devia estar se divertindo. Que vontade louca de descer para a pista e só olhar! Não precisava mais nada, só olhar para aquela linda mulher dançando, sorrindo e iluminando o salão e o mundo à sua volta.
Depois de jantarmos, eu me separei do grupo e fui procurar por ela.
No fundo do salão, no cantinho mais escuro, cercada de vários jovens, como se guarda-costas fossem, lá estava ela, em um exercício de contorcionismo esplêndido.
Me aproximei… ela me notou e sorriu para mim.
Sabe quando alguém leva um baita choque? Foi o que senti naquele momento com aquele sorriso disparado em minha direção.
Chamei o garçom, pedi um “gin fizz” e me sentei de frente para ela.
Confesso que não tirei os olhos dela nem por um segundo, nem para receber a bebida que o garçom me trouxe. É que ela dançava muito, e eu estava hipnotizado por tanta sensualidade.
Acho que consegui desconcertar a menina. Ela veio em minha direção, sentou ao meu lado e iniciamos uma conversa… ah, meu Deus!… Eu estava conversando com a mulher mais linda da noite, e ela deixava claro que estava se divertindo… O tempo parou.
Amanheceu; o dia claro nos surpreendeu no meio-fio de uma calçada qualquer, em qualquer lugar da cidade.
Continuávamos a contar histórias das nossas vidas, e aquilo não terminava; não queríamos que terminasse.
Ela aceitou o meu convite e foi dormir na minha casa, na verdade, na minha cama, e aos poucos fomos descobrindo os segredos escondidos em cada curva dos nossos corpos.
Nos amamos, sim. Nos lambuzamos de beijos, exploramos os afagos, nos consumimos pelo fogo da paixão, desconstruindo regras subversivas do amor, e depois fomos à praia.
Foram três anos de muito amor, sexo e traição, até o dia em que a perdi para um outro homem que deveria ter virtudes maiores que as minhas.
Eu confesso que amei outras vezes e não lembro de um momento que fosse igual ou melhor do que algum outro. O amor é sempre bom.
Sofri por amor e não lembro de ter sofrido diferente por amores diferentes; todos doeram igual e muito.
E tudo valeu a pena. A vida é boa de se viver em qualquer lugar e em qualquer situação.

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