Minhas Memórias - Capitulo 33

 

Capítulo 33 – O Chão da Oposição


A ameaça física que sofri após a assembleia não me intimidou; ela acendeu um propósito. Aquele dia marcou o fim da minha tolerância com a velha política sindical, que era personalista e fechada.

Eu sabia que, para mudar a essência do movimento, eu precisava ir além dos convênios e das orientações previdenciárias: eu precisava entrar na disputa.

A notícia do confronto no Rio de Janeiro se espalhou como um rastilho de pólvora, não apenas na capital, mas principalmente no interior, onde minha atuação com os convênios e a ajuda aos novos concursados já havia me dado uma base de confiança.

O que eu não esperava era a reação imediata de alguns colegas da capital que também estavam insatisfeitos com os rumos da direção. Eles não tinham a coragem, ou talvez o histórico, para se levantar na assembleia, mas viram em mim a voz que precisavam.

Formamos um grupo inicial de cinco pessoas: três da capital, um de Niterói e eu, representando o interior.

O objetivo era claro: apresentar uma alternativa ética, com foco nas bases e no diálogo, em contraponto à confrontação sistemática da situação.

Minha rede de contatos no centro-norte do estado foi essencial. Os colegas de Friburgo, Cordeiro e Cantagalo, que se beneficiavam dos convênios, tornaram-se meus cabos eleitorais. Eles garantiam o apoio de dezenas de servidores do interior, um bloco de votos frequentemente negligenciado pela capital.

No início, eu não me via como presidente. Minha preferência era atuar nos bastidores, como articulador da política do interior e responsável pelo plano de benefícios. Sugeri alguns nomes da capital, pessoas mais experientes no jogo político interno.

Contudo, o grupo chegou a uma conclusão unânime e irrevogável: Eu deveria ser o cabeça de chapa.

Minha história era de serviço e denúncia, não de política partidária ou barganha. Eu era visto como um outsider.

Pela primeira vez, uma chapa teria um líder vindo de fora da capital. Isso daria visibilidade e poder de voto a uma região historicamente esquecida.

Minha preferência pelo diálogo, criticada pela situação, era vista como a principal virtude da chapa de oposição. Eles queriam um sindicato que negociasse, não apenas que gritasse.

Aceitei o desafio com a consciência de que a luta não seria apenas contra a chapa da situação, mas contra o establishment de uma política sindical arraigada.

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A eleição para a nova diretoria do Sindicato dos Servidores do Judiciário Fluminense foi, para todos os efeitos, a vitória do improvável.

Nossa chapa, formada por gente do interior e sem o apoio de nenhuma Central Sindical, como a CUT, nem de partidos de esquerda, atropelou a chapa da capital. Eu, César Salgueiro, um forasteiro de Nova Friburgo, era o novo presidente. O que parecia impossível havia se concretizado.

A comemoração em Nova Friburgo varou a noite. O novo presidente, antes desconhecido, virou uma celebridade local, prestigiado por prefeitos, vereadores, juízes e promotores. Contudo, a euforia não durou. O início da gestão foi a antítese do prestígio.

Em 1993, assumimos a terceira diretoria de uma entidade fundada em 1987, sem sede física.

Nossa "sala" era uma divisória improvisada no final de um corredor sem janelas no prédio da Corregedoria do TJRJ, na Av. Erasmo Braga — parecia uma solitária.

Sem patrimônio e com arrecadação pífia, o Sindicato sobrevivia à base de favores. As gestões anteriores haviam conquistado projeção política com greves históricas, como a dos 100 dias, mas os ganhos reais para a categoria eram mínimos, devorados pela inflação voraz.

Nosso primeiro desafio foi reverter a desconfiança da administração do TJRJ.

Em meio a um embate, consegui, após uma longa e franca conversa com o então presidente do Tribunal, o compromisso de um reajuste escalonado para 1994.

A notícia esvaziou a greve e marcou o início de uma nova era: anos de paz institucional, sem greves ou movimentação de rua, mas repletos de conquistas sociais e políticas.

Com os reajustes que se seguiram, criamos cooperativas tanto de automóveis quanto de computadores, compramos nossa sede social, os dois últimos andares do prédio na Rua do Paço 24. Compramos a primeira sede recreativa em Jacarepaguá e chegamos aos maiores salários do Judiciário em todo o Brasil.

Criamos e fundamos a Cooperativa de Crédito Mútuo dos Servidores da Justiça, hoje integrante do Siscoob, esse acontecimento me deu projeção nos principais jornais do país.

Todo esse trabalho me colocou em meio à grande política nacional: Leonel Brizola, Antônio Carlos Magalhães, Marcelo Alencar, Sérgio Cabral, Fernando Henrique Cardoso. Eu circulava entre a direita e a esquerda com tranquilidade.

Vieram as homenagens: Cidadão Friburguense, Macaense, Cantagalense, moções das Câmaras Municipais e Estadual, convites para inaugurações e recepções a autoridades.

Vieram mais três reeleições para a presidência do Sindjustiça e, surpreendentemente, um convite para ser cabeça de chapa da Federação Nacional dos Servidores do Judiciário do Brasil e outro para me filiar ao partido PDT, este último feito pessoalmente pelo ex-governador Brizola.

Fui eleito presidente da Federação por dois mandatos seguidos e aceitei o convite do Brizola para me filiar ao PDT.

O mapa político estava desenhado, mas a oposição sindical não ficou satisfeita com a minha projeção, e as centrais sindicais começaram a fazer uma campanha para me tirar dos cargos e me desmoralizar permanentemente, forçando um afastamento definitivo da política pública.

Uma diretora do sindicato, nesse ínterim, fez concurso para o Ministério Público e se tornou promotora. Ela nunca escondeu sua desaprovação à minha gestão e era simpática ao grupo da esquerda. Ela foi peça importante no meu futuro político.

Foi ela que abriu inquérito para apurar a minha participação na criação da Cooperativa de Crédito dos Servidores. Fui intimado por diversas vezes para depor na sede da Polícia Federal. A suspeita era a de que eu teria usado a cooperativa para beneficiar o sindicato.

Em outubro de 2001, nas eleições sindicais, sofri a minha primeira derrota em meio a uma campanha covarde de difamação promovida por marqueteiros dos partidos de esquerda e das centrais sindicais.

Minha campanha para deputado estadual em 2002 foi interrompida pelo assassinato do meu parceiro de chapa, Luiz Petra, ocorrido 17 dias antes das eleições.

O Ministério Público Estadual abriu outro inquérito para apurar as compras das duas sedes do sindicato. Esse inquérito se tornou processo, chegando ao final em agosto de 2003.

O Comendador, Candidato a Deputado Estadual, Cidadão Friburguense, Cantagalense, Macaense, doutor Honoris Causa em Direito, César Salgueiro, estava fora da política.



Mas a vida continuou… Breve mais um capítulo.

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