Minhas Memórias - Capítulo 34

 

Capítulo 34 - A Vida que Segue


A aptidão para gerir crises é a marca de um político. 

Ironia do destino: embora minha carreira tivesse florescido à frente de uma influente corporação, me colocando no centro de fatos políticos devido ao meu sucesso, eu nunca fui um político de verdade. E, francamente, crises sempre me causaram medo. Eu as enfrentava de frente, sim, mas o temor era real e constante.

O preço desse emaranhado de responsabilidades foi cobrado pelo meu corpo. Minha saúde deu sinais claros de esgotamento: dores no peito, dificuldade para respirar e a incapacidade de terminar frases simples. A insônia, a ansiedade, os surtos de pânico e a instabilidade emocional me forçaram a uma decisão radical.

Para retomar o controle da minha vida, renunciei à presidência da federação no início de 2002 e decidi voltar à estabilidade do trabalho cartorário. Naquele momento, eu já havia perdido a eleição sindical de 2001, mas ainda cumpria o mandato da federação, acumulando as duas presidências por cerca de dois anos.

Entretanto, nesse período de transição, entre o fim de 2001 e o início de 2002, recebi um convite que parecia impossível de recusar. Leonel Brizola me chamou para me candidatar a deputado estadual no Rio de Janeiro, com Roberto Silveira concorrendo ao governo e Ciro Gomes à presidência.

Minha missão, articulada pela assessoria de Brizola, era fazer uma "dobradinha" com o candidato a deputado federal, Sr. Luís Petra, que, por sua vez, bancaria os custos da minha campanha.

O projeto de Brizola era grandioso: eleito ou não, eu deveria ir para Brasília ao lado de Petra (que era favorito à vitória), usando meu amplo trânsito no meio sindical para integrar as organizações de trabalhadores ao partido.

Mas o destino interveio de forma brutal. Na véspera das eleições, fomos atingidos por uma notícia devastadora estampada nas manchetes cariocas: Luís Petra havia sido assassinado a tiros ao tentar impedir a retirada de seus cartazes de campanha.

Minha campanha, totalmente dependente de Petra, implodiu instantaneamente. Além do isolamento partidário pós-tragédia, fui obrigado a assumir as despesas de campanha pendentes, recorrendo a empréstimos bancários pesados que me endividaram por anos.

Perdi a eleição. Caí no vazio político. O grande plano de Brasília desapareceu.

No início de 2002, consegui um encontro com o Corregedor-Geral da Justiça do TJRJ e obtive minha transferência de volta para Nova Friburgo.

A vida seguiu um curso mais calmo até 2014, quando finalmente consegui minha aposentadoria.

Achei que era o fim de uma longa batalha. Mas, como aprendi, a vida é uma sucessão de superações; o que nos define é a forma como atravessamos as tempestades, e elas, infelizmente, nunca param de chegar.

Detalhando…

Trabalhar no judiciário pode parecer, para alguns, uma maravilha: bons salários, estabilidade, plano de saúde, auxílio alimentação, etc., etc… 

Ninguém imagina que, no exercício das funções, sofremos pressões de todos os lados: partes interessadas, advogados, promotores, juízes e até mesmo dos colegas de trabalho. O nível de estresse é muito alto.

Depois de 30 anos dedicados ao TJRJ, eu contava nos dedos o tempo que faltava para me aposentar. 

Eu nem posso reclamar muito, pois tive sorte em ser designado para cartórios com profissionais de gabarito e dispostos a ensinar e a compreender as dificuldades de cada indivíduo. 

Além de tudo isso, eu ainda fiquei por dez anos fora dos cartórios, exercendo atividades sindicais e representativas dentro e fora do Tribunal do Estado.

Voltar à minha realidade, ao padrão de um simples trabalhador, depois de ter vivido todo o glamour do poder, não foi uma coisa fácil. 

Passei dez anos ao lado de ministros, políticos, governadores, presidentes de tribunais, negociando melhores condições de trabalho para os servidores, sendo paparicado, homenageado, recebido com honrarias por autoridades de todo o Brasil e, de repente, cá estava eu batendo de frente com a minha real verdade. Foi um grande choque e um exercício de humildade. 

Não fui recebido de volta com as honrarias às quais já estava acostumado. Pelo contrário, a categoria estava em greve e tentaram me barrar na entrada do fórum de Nova Friburgo. Eu não aderi ao movimento grevista e me apresentei para o trabalho. 

Claro que essa minha atitude me proporcionou alguns inimigos, principalmente aqueles que eram ativistas da esquerda e já nutriam algum sentimento negativo a meu respeito, mas também fiz alguns bons amigos.

A denúncia da promotora, ex-diretora do sindicato, contra a minha diretoria, pela compra das sedes sem autorização de assembleia geral da categoria, foi recebida pela juíza de uma das varas criminais do Rio, tornando-me réu. 

De todas as tentativas para me incriminar por algum procedimento político, aquela foi a única que vingou. A juíza deixou clara a sua simpatia pela esquerda brasileira.

De 2002 até 2014 foram anos de trabalho duro, de uma realidade difícil, de uma perseguição política implacável, de humilhações e muita superação.

Finalmente, em abril de 2014 eu me despedi definitivamente daquele ambiente insalubre, ameaçador, funesto e nunca mais voltei: eu estava aposentado. 

Junto comigo, o processo, que seguia sua trajetória de recursos e de nulidades pelas diversas instâncias do sistema judiciário. 

Os primeiros meses foram desesperadores. Insegurança, esse era o sentimento. 

O medo de tudo, de não receber os vencimentos no final do mês… Receber pelo quê? Eu não estava mais trabalhando! …era o mais desesperador de todos os outros medos. 

O tempo livre me permitia criar fantasmas.

Sem perceber, eu estava em um processo depressivo: a ansiedade, o medo do nada, o vazio, o processo… Resultado: parei no bar com um copo de cerveja em uma mão e um shot de cachaça na outra. 

Meu dia a dia passou a ser: acordar, ir na academia e passar o resto do tempo no bar, bebendo e me embriagando de álcool e tédio. 

Mas os oposicionistas não desistiam, continuavam a campanha de difamação através do jornal da categoria e dos representantes sindicais que viajavam o estado. Eles queriam a certeza de que eu jamais voltaria à política sindical. 

Mal sabiam eles que, enquanto se articulavam, eu estava pelas ruas cambaleando de bêbado. Foi um período longo até acordar. 

Meus surtos eram mais constantes: brigas, ofensas, choros, escândalos, até o dia que alguém me arrastou para um clínico que me indicou um psiquiatra que iria me ajudar. 

Custei a aceitar, mas acabei no consultório do especialista, que me receitou um tarja-preta e um tarja-vermelha. 

Começava uma nova era na minha vida: além do álcool, eu ingeria diariamente um tarja-vermelha pela manhã e um tarja-preta à noite. 

No início até ajudou, com o tempo me tornei dependente, não conseguia mais parar de usar os tais comprimidos e continuava a beber; aí foi o caos.



Continua… Em breve, mais um capítulo. 

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