Minhas Memórias - Capitulo 35

 


 Capítulo 35 - Os Primeiros Surtos


- “O que pode levar uma pessoa à depressão, à loucura, ao desequilíbrio?” - Essa era a pergunta que eu me fazia após ter sido diagnosticado com a síndrome do pânico.

Afinal, eu era uma pessoa bem-sucedida, reconhecida por ter feito um bom trabalho. Eu havia realizado conquistas não só para mim, mas para milhares de famílias que dependiam do sucesso do meu desempenho.

Durante a minha gestão, conseguimos ser os servidores do Judiciário brasileiro mais bem pagos.

- “Então, de onde veio essa coisa?" - Eu não conseguia entender.

Talvez tudo tenha começado na época do sindicato e da federação.

A cobrança era diária; além da categoria, eu me cobrava. As coisas tinham que ser perfeitas, eu não aceitava erros nem derrotas.

Para evitar esses erros, eu preferia negociar com as autoridades sozinho. Não queria correr riscos com exclamações ou interrogações inoportunas de algum outro diretor. Eu não confiava no feeling deles, pois vinham de uma cultura de greves e confrontos. Entre eles, havia arruaceiros infiltrados.

Por eu estar sempre só ao negociar, despertava não só o ciúme, mas também a desconfiança.

Eu era vigiado 24 horas por dia, não havia um só momento de privacidade. A minha vida estava em todos os panfletos da oposição.

Se eu ia a um shopping, a um restaurante, no dia seguinte todos os servidores do estado sabiam.

Emplacar o discurso de que, além de corrupto, eu era o responsável pela desmobilização política da categoria, tudo em troca das conquistas salariais: essa era a intenção daquelas pessoas.

A recepção negativa no fórum local, quando da minha volta, o peso do processo do MP, as insinuações, humilhações, provocações dos grupos oposicionistas de Friburgo, tudo me empurrava pra baixo e aumentava a pressão.

- “Eu mereceria o que estava acontecendo ?”- não me conformava.

As consequências de toda essa pressão chegariam a qualquer momento, e chegaram quando me aposentei.

Quando recebi o diagnóstico de portador da síndrome do pânico, depressão e ansiedade generalizada, fui encaminhado a um profissional da área de psiquiatria que me receitou dois remédios: um tarja preta e outro tarja vermelha, ambos usados no tratamento de transtornos de saúde mental.

A melhora foi imediata, foi como se o paraíso abrisse as portas para a minha entrada triunfal; o mundo não era mais preto e branco.

Os bares se tornaram meu refúgio, onde eu conversava com os amigos e mostrava o quanto eu estava bem. Só que, além da cerveja e dos shots de cachaça, eu fazia uso dos comprimidos.

Veio a pandemia de COVID-19. Nesse período pandêmico, eu passei a beber vodca. Confinado em casa, por determinação das autoridades públicas, eu passava os dias regados a caipivodcas.

Quando veio a liberação dos bares, voltei ao Bolero. Claro que eu não estava bem. Acho que ninguém estava bem depois da pandemia.

A minha doença se agravou e, no dia 19/02/2021, às 12h25, eu tive um surto de pânico tão violento que mobilizou os frequentadores do Bolero e do comércio vizinho.

Um sentimento ruim escureceu minha visão, tudo passou a ser minha culpa: a pandemia, o desemprego causado por ela, a fome, a miséria... era tudo culpa minha.

Eu gritei como um louco, pedia socorro. Estava só em meio àquela escuridão. Paralisado, punhos cerrados, olhos arregalados, gritava.

Fui internado na UTI do Hospital Serrano em meio a pacientes acometidos pela COVID.

Retiraram meu celular, minhas roupas, espetaram-me com agulhas e me mantiveram isolado do mundo real por quatro dias e noites. A única coisa boa que existia naquele lugar era a comida. Eram cinco refeições por dia, todas saborosas.

Tive que brigar com a direção do hospital para que me dessem alta.

Não demorou muito e chegou a notícia da condenação da minha diretoria, no processo instaurado e denunciado pela da ex diretora do sindicato, do grupo da oposição, mas ela não pode comemorar a vitória, ela não viveu o suficiente pra ver isso acontecer. 

A vida é cheia de curvas, cada curva significa um avanço no caminho.

Algumas curvas são suaves, outras sinuosas e turbulentas. O importante é ter consciência de que a estrada tem um fim. Qual o segredo pra se chegar lá ?

Paciência, resiliência e fé.



Continua…. Breve o último capítulo desta temporada.


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