O Intervalo Solitário
O Intervalo Solitário
Por Comendador Cesar A Salgueiro
A solidão é o primeiro e o último nome que recebemos, muito antes de nossos pais escolherem um.
Viemos ao mundo num grito que era só nosso, e partimos no silêncio que também será exclusividade da nossa alma. O que se estende entre esses dois instantes é o que chamamos, com alguma pretensão, de vida. E é nesse intervalo que a máxima da nossa existência se revela com uma clareza brutal: somos singularmente, irrevogavelmente, únicos.
Não se trata da solidão física, aquela da casa vazia ou da mesa de restaurante para um. É a solidão existencial, a que nos lembra que ninguém pode respirar por nós, sentir a dor exata que nos atravessa ou decifrar o sonho que só vive em nossa cabeça.
Ao longo do caminho, construímos castelos de tijolos, de carreiras, de amores e de certezas. Fincamos bandeiras no solo das conquistas e chamamos tudo isso de "meu": minha casa, minha fortuna, minha história.
Mas a vida, essa cronista implacável, nos sussurra a verdade em cada ruga, em cada perda: não seremos donos de nada. Somos apenas zeladores temporários do que a poeira e o tempo se encarregarão de reclamar.
E é por sermos tão sós na essência que a nossa responsabilidade se torna maior. Se o futuro não será legado, mas apenas uma brisa que passa, ele é, no entanto, a nossa única obra. Não podemos culpar o acaso ou terceirizar a coragem. A cada manhã, somos o único arquiteto diante da construção do nosso dia.
Aprendemos a dividir o pão, o riso e a cama. Conseguimos compartilhar a alegria até que ela pareça coletiva. Mas quando a dor chega, a dor essencial, aquela que fratura a alma, ela se isola em nosso peito. Podemos ser abraçados, ouvidos e amados, mas a facada é sentida por um só corpo. Ninguém pode tomar a nossa enxaqueca para si, nem carregar por nós o luto de uma ausência.
O clímax dessa solidão intransferível é o fim. A morte não se divide. É o último ato, performado por um ator só. As mãos podem estar entrelaçadas, os sussurros de adeus podem encher o quarto, mas o portal é estreito e só permite uma passagem.
Talvez o grande segredo da vida não seja tentar fugir dessa solidão, mas aceitá-la como a nossa condição mais nobre. É ela que nos confere a liberdade para construir, a força para sofrer e a dignidade para partir.
Se a dor e a morte não podem ser divididas, então, que usemos o breve e precioso intervalo da vida para dividir o que é realmente divisível: o carinho, a compreensão e a luz que só a nossa única e singular jornada pode irradiar.
No final, restará o eco do nosso grito solitário, mas entre o nascer e o morrer, teremos sido, inegavelmente, nós mesmos.
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