O Animal Não Domesticado
O Animal Não Domesticado
Por: Comendador Cesar A Salgueiro
Se existe uma razão única para eu permanecer só, ela atende pelo nome de liberdade. Ou, mais especificamente, pela recusa ao controle que, provavelmente, um outro tentará exercer sobre mim.
Cresci sem rédeas. Órfão de pai aos nove anos, com uma mãe ausente pela dura necessidade de prover o nosso lar. Naquela idade, eu já carregava a chave no bolso e o destino nas mãos. Cuidava de mim do meu jeito, fazia as escolhas que julgava melhores. Não havia ninguém para me conduzir ou ditar caminhos; eu já era o dono absoluto do meu livre arbítrio.
Minha mãe era a companhia dos fins de dia e dos domingos. Com ela, aprendi o ofício da casa e o tempero da cozinha. Mas, quando ela partiu, fiquei à deriva. Um jovem de 22 anos, desempregado e solto no mundo, sem casa, sem colo, sem abraço e sem paradeiro.
Como aceitar, depois de uma vida respondendo por mim mesmo, que alguém se intitule dono das minhas escolhas?
Eu tentei. Mas, ao primeiro sinal de interrogação, percebi que aquele figurino não me servia. “Por quê?”, “Onde?”, “Com quem?”, “Fez o quê?”... essas perguntas, quando usadas como cercas, soam para mim como os ecos da Inquisição.
Não queiram me controlar. Não tentem. Eu não sou controlável. Sou um ser humano bom, sim, mas sou livre para errar, sofrer e quebrar a cara por conta própria. Quer ser meu amigo ou minha amiga? Não me questione. Pode discordar, pode não aprovar, pode até dizer "não", mas não tente invadir a minha autonomia.
Casei-me cinco vezes. Foram parcerias maravilhosas. Em todas as vezes, antes que a convivência se tornasse uma via crucis, as situações foram esclarecidas para que ambas as partes se salvassem da infelicidade. Sou amigo de todos os meus casamentos, guardo o respeito por cada união e sei que a razão de não terem prosseguido foi sempre minha: a incapacidade de ser domado.
Minhas escolhas — certas ou erradas — são, e sempre serão, apenas minhas. Sou assim. Sou isso. Um animal que nunca permitiu ser domesticado.
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