Crônica


Sobre o medo e a superação 
Por : Comendador Cesar A Salgueiro 

Eu tinha muito medo, claro. Aquela visão abalou toda a minha estrutura emocional, e um vazio cheio de dúvidas explodiu bem na minha frente. O caixão com o corpo da minha mãe descia em direção ao esquecimento de uma escuridão fria e solitária; era um buraco no chão envolto em concreto impenetrável. Havia uma multidão de estranhos conhecidos e familiares desconhecidos na plateia daquele espetáculo de humilhação que sentenciava o fim da vida — não só daquela mulher, mas da minha também.

Meu irmão mais velho, com a cabeça encostada em uma árvore, chorava. Não sei se isso foi verdade, se aconteceu mesmo ou se a minha imaginação inventou; parece-me dramático demais para não ser a cópia de uma cena hitchcockiana de cinema. A bem da verdade? Não tenho a menor ideia de quem estava lá.

E, a partir dali, veio o meu medo. Os dias, os anos e as décadas que se sucederam foram de um constante enfrentamento: medos, medos e mais medos.

Teve um dia em que eu vinha de lugar nenhum, em direção a sei lá onde. Precisava de um lugar para dormir. Estava cansado, havia caminhado o dia todo, e o terror era tanto que já nem me assustava mais. De um lado, a praia; do outro, prédios luxuosos, caros, cheios de conforto, banho, comida e famílias que se amavam naquele meu imaginário possível. À frente, um conjunto de pedras. Sentei no topo de uma delas. 

Não havia mais ninguém. As ondas quebravam sob o resto de luz que as alcançava e eu... eu era ninguém no meio do nada, sem direção, sem a tal família amorosa que habitava a minha imaginação. Querendo apenas um banho e o conforto de um ombro protetor, eu só queria deixar de ter medo, compreender aquela situação e encontrar um ponto de partida. Dormi no topo daquela pedra-mãe.

Que horas são agora? 05h35 da manhã de sexta-feira, 05 de junho de 2026.

Vou tomar o meu Puran e voltar a deitar; ainda posso dormir até as 07h00. Afinal, tenho um dia inteiro pela frente para preencher com a minha alegria e gratidão.


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