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Crônica para mim mesmo

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    CRÔNICA . Crônica para mim mesmo Por Comendador Cesar A Salgueiro   Resta irrefutável a incapacidade do Estado de confrontar as facções criminosas no Brasil, um cenário que adquire contornos ainda mais dramáticos no Rio de Janeiro. A corrupção endêmica, aliada ao flagrante sucateamento do aparato policial, converteu o cidadão de bem em um verdadeiro refém da violência. Embora o discurso oficial propague o uso da inteligência para asfixiar financeiramente o narcotráfico, a realidade nas ruas impõe um contraste cruel: cidadãos, que arcam com uma carga tributária exorbitante, são diuturnamente assaltados e assassinados. Os algozes, frequentemente a bordo de motocicletas roubadas e desprovidas de identificação, agem à luz do dia e em qualquer região da cidade. A corporação policial, por sua vez, carece da estrutura elementar para fiscalizar e combater essa modalidade criminosa, na qual o veículo de duas rodas se tornou um verdadeiro passaporte para a delinquência e a impu...

Se…

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  Se… Por Comendador Cesar A Salgueiro   E se eu pudesse trazer a minha mãe para o mundo de hoje, apenas para darmos um passeio, assim como ela fazia com o meu pai quando ainda eram jovens? Ou, quem sabe, se eu pudesse me transportar para o tempo em que, ainda jovem, ela caminhava com o meu pai pelas ruas do Passeio Público. Seria, sem dúvida, menos traumático para ela me encontrar em seu mundo do que no meu. Aquele era um tempo em que as pessoas se respeitavam, onde a violência era próxima a zero. No meu mundo atual, é a paz que beira o zero, e tamanha brutalidade certamente a deixaria angustiada. Mas… e se… e se eu usasse a Inteligência Artificial para cruzar esses mundos? Como explicar um filho de 72 anos caminhando ao lado de sua mãe de 36? É exatamente isso que gosto de explorar nesse avanço da tecnologia: misturar as coisas, sacudir a poeira estática do tempo, libertar-me da preocupação com a lógica e desafiar o mundo dos ‘Ses’, essa ponte ilimitada entre o real e o poss...

Minha Liberdade Não Está à Venda Por: Comendador Cesar A. Salgueiro É desconcertante ver como uma ferramenta de conexão pode se tornar um instrumento de aprisionamento. Ultimamente, tenho me sentido assim: cercado, pressionado, vigiado. O motivo? Ter sido educado, honesto e amoroso. Parece que, no mundo digital, a decência é interpretada como disponibilidade integral, e a simpatia como um convite à invasão. Sou um homem de hábitos simples, que preza pela leveza e pela saúde acima de tudo. Não busco palcos; busco paz. No entanto, vi-me em uma situação constrangedora, onde minha rotina pacífica foi transformada em um cenário de pressão descabida. Para quem esqueceu: o fato de eu ser acessível não significa que eu esteja disponível para ser controlado ou, muito menos, leiloado. Minha vida não é uma vitrine para curiosos, nem minha paciência é infinita. Minha Liberdade Não Está à Venda. Já deixei claro que não desejo compromissos "pegajosos". Não quero pessoas a me perguntar: "como estou?", "onde fui?", "o que tenho?", "se estou bem?" ou "o que me incomoda?". Eu amo a solitude. Idolatro minha liberdade e independência. Não tolero ofertas fáceis de amor gratuito. Eu já tive — e tenho — o meu grande amor; não aceito cópias e não busco substituições. Se, para evitar que minha vida se torne um cárcere em minha própria casa, eu tiver que deixar de ser gentil... sinto dizer, mas não vai funcionar. Vou cumprimentá-los com a educação que recebi e que tenho como princípio, mas saibam: a cada cumprimento, a distância entre nós estará aumentando. Sou um aquariano de quase 73 anos e não existem arreios que me domem ou me tirem do meu caminho. Não sou um animal de carga; se fosse, meu lugar seria a vastidão selvagem. Vou lutar e ser embaixador da minha própria causa: “A liberdade de escolher a solitude como prioridade”. Amem-me, mas amem-me de longe. Não queiram aproximação, pois, neste momento, ela só nos distanciará ainda mais. 🌺

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  Minha Liberdade Não Está à Venda Por: Comendador Cesar A. Salgueiro É desconcertante ver como uma ferramenta de conexão pode se tornar um instrumento de aprisionamento.  Ultimamente, tenho me sentido assim: cercado, pressionado, vigiado. O motivo? Ter sido educado, honesto e amoroso. Parece que, no mundo digital, a decência é interpretada como disponibilidade integral, e a simpatia como um convite à invasão.  Sou um homem de hábitos simples, que preza pela leveza e pela saúde acima de tudo. Não busco palcos; busco paz. No entanto, vi-me em uma situação constrangedora, onde minha rotina pacífica foi transformada em um cenário de pressão descabida. Para quem esqueceu: o fato de eu ser acessível não significa que eu esteja disponível para ser controlado ou, muito menos, leiloado.  Minha vida não é uma vitrine para curiosos, nem minha paciência é infinita. Minha Liberdade Não Está à Venda. Já deixei claro que não desejo compromissos "pegajosos". Não quero pessoas a me ...

O Meu Amor

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  O Meu Amor   Por Comendador Cesar A Salgueiro  Não tem amor sem dor. Amor sem dor não é amor. O amor dói, e como dói! Quem já viveu um ou mais amores sabe do que estou falando. A dor do amor dói mais que dor de dente. Ele começa devagarinho, vai crescendo e, de repente, lá está o lado perigoso dele: o verdadeiro amor. O amor que desmonta trajetórias, que transforma o bem no mal, que escurece a visão, que enlouquece o mais manso dos homens. Me conta uma história de amor sem dor e eu te digo que não foi amor. Os seres humanos nascem condenados a morrer de amor, ou a se deixarem morrer em nome dele. O amor não é herói e não é vilão; o amor só é…  Como explicá-lo? O amor que trago trancado em mim, louco para extravasar, esse amor me dá medo. É um amor desmedido, que só me deixa, e aos outros, seguro se permanecer como está: inquieto, preso no mesmo lugar. Soltá-lo não é opção libertária; soltá-lo é colocar a sociedade em risco. Ai de quem cruzar o seu caminho. O amor c...

Os Dois Lados da Moeda

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    Os Dois Lados da Moeda Por : Comendador Cesar A Salgueiro  São 72 anos de histórias — e que histórias! Deus foi generoso comigo ao me permitir conhecer os extremos. Ele me deu a oportunidade de viver a crueza das ruas, a fome e o abandono, mas também me abriu as portas do mundo da opulência, das autoridades e do universo curioso daqueles que ostentam o poder. Já estive preso, fui refém e me vi submetido. Mas também conheci a liberdade plena, em voos altos, desfrutando do melhor que esta vida pode oferecer. Conheço bem os dois lados: o do medo paralisante e o da confiança absoluta. Hoje, aqui na minha varanda, com o vinho na taça de cristal e música boa no streaming, reflito sobre essa jornada. Administro minhas páginas, converso com milhares de amigas gentis e generosas; sou Comendador, sou dono do meu nariz. Sinto-me, enfim, libertado pelo amor e pelo acolhimento de pessoas que, embora muitas eu só conheça virtualmente, tornaram-se reais no afeto. Obrigado — e mais ...

O Espaço do Respiro

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    O Espaço do Respiro Por : Comendador Cesar A Salgueiro   Existem dias em que o mundo parece insistir em nos colocar no centro de um palco que não pedimos para subir. Chegam com perguntas, com dilemas que não nos pertencem e com o peso de escolhas que, para nós, não têm a menor cor — e, ainda assim, esperam que decidamos o tom do azul. Sinto, nessas horas, o aperto de quem é encurralado. Não é falta de vontade de ajudar, é excesso de mundo querendo caber dentro de um espaço que já está cheio de vida, de memórias e de silêncios necessários. Quando o interesse não existe, a escolha se torna uma âncora; e eu, que sempre prezei pelas estradas abertas e pelo vento no rosto, não nasci para carregar âncoras alheias. O que peço é simples, embora pareça complexo para quem vive de urgências: me queiram por perto, mas respeitem a distância do fôlego. Não me sufoquem com a ideia de que devo ser um porto seguro ou um exemplo de conduta. Sou humano, com toda a precariedade que isso ...

O Amor como Dor de Alegria

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  O Amor como Dor de Alegria Por : Comendador Cesar A Salgueiro   Quando sonho com o grande amor, é como uma explosão no universo: cheio de cores e uma orquestra de violinos… algo só possível na imaginação. Mas é um amor imensurável. Eu estava ouvindo “Should I Feel That It’s Over”, com Alison Moyet. Veio uma curiosidade imensa de conhecer a letra.  - Por que me identifiquei tanto com a melodia e com a interpretação da cantora? Talvez por ser um amor resolvido, o espaço livre para mais uma aventura, sem pendências. É assim que me sinto, é assim que me vejo.  Coloquei a música novamente. Preciso ouvir de novo, e de novo… Sim, acho que é a voz dela que está me elevando para o plano aventureiro de um novo amor; não é apenas a letra.  Olho para a varanda e lá, do lado de fora, o cinza e a chuva me fazem prisioneiro da Alison, da música, do momento. Sou refém de um amor que insiste em renascer, contra todos os esforços que faço para que ele permaneça guardado onde es...

O Animal Não Domesticado

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  O Animal Não Domesticado Por: Comendador Cesar A Salgueiro  Se existe uma razão única para eu permanecer só, ela atende pelo nome de liberdade. Ou, mais especificamente, pela recusa ao controle que, provavelmente, um outro tentará exercer sobre mim. Cresci sem rédeas. Órfão de pai aos nove anos, com uma mãe ausente pela dura necessidade de prover o nosso lar. Naquela idade, eu já carregava a chave no bolso e o destino nas mãos. Cuidava de mim do meu jeito, fazia as escolhas que julgava melhores. Não havia ninguém para me conduzir ou ditar caminhos; eu já era o dono absoluto do meu livre arbítrio. Minha mãe era a companhia dos fins de dia e dos domingos. Com ela, aprendi o ofício da casa e o tempero da cozinha. Mas, quando ela partiu, fiquei à deriva. Um jovem de 22 anos, desempregado e solto no mundo, sem casa, sem colo, sem abraço e sem paradeiro. Como aceitar, depois de uma vida respondendo por mim mesmo, que alguém se intitule dono das minhas escolhas? Eu tentei. Mas, ao ...

O Encontro que Não Houve

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  O Encontro que Não Houve Por: Comendador Cesar A Salgueiro  Ela estava na mesa ao lado. No começo, achei que estava acompanhada, mas logo percebi o silêncio e a distância entre o casal. O que eu não entendi foi o meu interesse em cada movimento dela. Fiquei ali, meio hipnotizado. Olhando o jeito dela sorrir, de mexer no cabelo, cada detalhe. Sem chegar perto, eu já sentia uma paixão danada por aquela mulher. Ela não me notou. Falei pros amigos e eles riram. Disseram que era só tesão, que eu estava imaginando coisas. Mas, para mim, tinha algo mais. O tesão é bicho urgente, mas o que eu sentia era uma vontade de ficar só ali, assistindo à cena, como se o tempo tivesse parado naquela mesa.  O amor, às vezes, nasce desse jeito meio bobo, de uma observação silenciosa que ninguém mais ao redor consegue notar. Talvez a gente se encontre de novo, talvez nunca mais. Não sei se eu queria repetir essa sensação ou se, ao ver de novo, o encanto se manteria. No fundo, eu tenho medo d...

O Cansaço de Ser Bicho-Homem

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  O Cansaço de Ser Bicho-Homem Por Comendador Cesar A Salgueiro u Acordo com medo de dormir e durmo com medo de acordar. Parece um paradoxo, um nó cego na boca do estômago, mas é o meu estado civil atual. Olho para o teto e a pergunta vem, antes mesmo do café: o que foi que a gente virou? Ou pior: o que é que a gente sempre foi e eu só percebi agora? Dizem que somos a espécie racional. Mas, se você abre o jornal, a racionalidade parece ter tirado férias permanentes. O mundo virou um playground de egos gigantescos, um tabuleiro onde três ou quatro nomes — Netanyahu, o Ayatollah, Trump, o Hezbollah — jogam dados com as nossas vidas. Eles gritam de seus púlpitos, trocam ameaças por satélite, e o resto de nós, a "humanidade comum", fica aqui embaixo, encolhida, esperando o próximo estrondo. Dá uma vergonha latente de pertencer a essa raça. Uma vergonha de carregar o mesmo DNA de quem acha que a solução para a dor é o terror, que o caminho para a paz é o cemitério. Que loucura é e...

O Ventre e o Veneno

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  O Ventre e o Veneno Por Comendador CesarA Salgueiro  Confesso que não entendo. Assisto aos noticiários e a conta não fecha: como alguns homens conseguem pregar o ódio contra as mulheres? É um paradoxo que desafia a própria lógica da existência. Todos viemos de algum ventre. Todos, sem exceção, fomos abrigados no silêncio de uma mulher-mãe. Antes do primeiro passo, antes da primeira palavra, fomos o sopro de vida que ela sustentou. Como alguém que saiu de dentro dessa força, que foi amamentado, cuidado e acalentado por essa fera protetora, pode hoje alimentar um sentimento tão cruel e sórdido por aquela que é o pilar da sua própria história? Odiar a mulher não é apenas um ato de violência externa; é uma forma de odiar a própria origem. É como tentar cortar a raiz enquanto se quer os frutos. De onde vem tanto veneno para corromper o que um dia foi leite e afeto? Talvez esse ódio nasça do medo. O medo da própria vulnerabilidade, o pavor de admitir que, no fundo, somos todos dep...

O Alívio de um Anjo de Mãos Fortes

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  O Alívio de um Anjo de Mãos Fortes Por: Comendador Cesar A Salgueiro   Passei os últimos meses em um embate silencioso com a minha própria cabeça. Não era apenas uma dor; era uma pressão, algo invisível e aterrorizante que parecia esmagar meus pensamentos.  O medo é um mestre cruel: ele me fez adiar check-ups, me fez temer que minhas piores desconfianças fossem reais e transformou meus dias em um labirinto de incertezas. Mas a vida tem seus mecanismos de luz.  Primeiro, veio a intuição de que aquela artrose — classificada como "infantil" por um médico anterior — poderia ser a verdadeira vilã por trás do meu mal-estar. Depois, uma conversa casual na academia plantou a semente: e se o remédio não fosse um comprimido, mas o toque? O destino se encarregou do resto. Na mesa ao lado, na lanchonete onde faço meus desejuns, estava Juan. Um rapaz jovem, massagista de profissão.  Confesso que a juventude dele me fez duvidar por um instante, mas algo me impeliu a marcar ...

O Mundo Virginal

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  O Mundo Virginal Por Comendador Cesar A Salgueiro   Eu acostumei-me a enxergar o horizonte através das copas das árvores e dos cumes das montanhas. Não sei mais como é viver entre tijolos e concreto, asfalto e motores de veículos. O calor das grandes cidades não vem só do céu; ele nasce no piso e sobe como labaredas em capim seco. O ar quente me causa náuseas e falta de ar. Sou como um indígena em isolamento voluntário: mutante e em constante progresso involutivo. Preciso de espaço livre, de ar fresco, de mata, chuva e sol. A minha plenitude será colocar os pés na grama úmida e sentir a origem da vida na sola deles. Estar só no meu Éden primordial é estar no ventre do Deus criador, da Eva de Adão, do caos original. Podem me rotular de qualquer nome, podem até me desacreditar. Não vim do pó e em pó não me transformarei; mas o mesmo fogo que me deu a vida, este sim, me levará de volta ao mundo virginal.  Minha vida e a minha história ficarão em suspensão atmosférica, como...

O Silêncio dos Vidros Fumês

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  O Silêncio dos Vidros Fumês Por Comendador Cesar A Salgueiro   Eu amo a vida. Amo Deus, amo o sol que me acorda e cada detalhe que a existência me emprestou sem pedir nada em troca.  Mas, se a natureza é generosa, o tal do "animal racional" é uma decepção estatística. Parei para observar e a conclusão é amarga: a verdade é que ninguém está aí para os problemas do próximo. Vivemos a era das amizades de vitrine. As pessoas são amigas de quem está bem de vida, de quem exibe o sorriso largo e o bolso cheio. Quem não precisa de ajuda tem o mundo aos seus pés; mas basta o primeiro sinal de naufrágio para que os barcos ao redor desapareçam no horizonte. Ninguém quer o peso do problema alheio, principalmente se ele vier de um desconhecido.  A empatia, hoje, é uma peça de museu ou uma hashtag vazia. Sinto isso na pele. No primeiro momento em que precisei de ajuda, o que ouvi foi o barulho ensurdecedor do silêncio. Seja no brilho artificial das telas da internet ou na crueza...

O Medo de Ser Amado aos 72

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  O Medo de Ser Amado aos 72 (Uma crônica sobre o pânico, a beleza e a aceitação do afeto) Por Comendador Cesar A Salgueiro  Dizem que o pânico é um medo sem rosto, um visitante indesejado que chega ao amanhecer e se recusa a ir embora ao anoitecer.  Eu o conheço bem.  Convivo com essa sombra que me sussurra perguntas sobre o amanhã e me faz temer o que ainda nem veio. Mas o que mais me intriga nesta jornada, aos meus 72 anos, não é a solidão — é, por incrível que pareça, o excesso de carinho. Eu me olho no espelho e vejo o tempo. Vejo as marcas, o cansaço, a beleza que eu acredito já ter partido há muito. No entanto, o mundo parece discordar de mim. Recebo afetos generosos, tanto de amigos físicos quanto virtuais. Homens e mulheres que me cercam de atenções, que me chamam de bonito, que me tratam com uma reverência que eu, às vezes, sinto não merecer. Confesso: esse amor me assusta. Dá medo de decepcionar, de não estar à altura de tanta gentileza. É como se eu vives...

Onde foi parar a doçura dos cabelos brancos?

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  Onde foi parar a doçura dos cabelos brancos? Por Comendador Cesar A Salgueiro   Sempre crescemos ouvindo que a velhice traz a sabedoria. Imaginamos que, com o passar das décadas, as arestas da alma se suavizam e o coração aprende a filtrar o que é realmente essencial.  Mas, às vezes, o que encontramos é o oposto: o "coice" gratuito e a palavra amarga saindo da boca de quem deveria ser mestre na arte da tolerância. É chocante presenciar uma pessoa, especialmente alguém que já atravessou seis décadas de vida, distribuindo durezas e vociferando contra o próximo sem motivo algum.  Fico me perguntando: que tipo de legado estamos deixando? O que os jovens aprendem ao observar esse comportamento cruel vindo de quem deveria ser o porto seguro da compreensão e da boa educação? A idade não deveria ser um salvo-conduto para a amargura. Pelo contrário, quem já viveu muito sabe — ou deveria saber — o poder curativo de uma palavra doce e o estrago que um insulto pode causar. Se ...

A Geometria do Nada

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    A Geometria do Nada Por Comendador Cesar A Salgueiro  Aos nove anos, aprendi que o mundo é feito de partidas. Meu pai se foi para o eterno; minha mãe, para a sobrevivência. No vácuo que ficou entre a porta da rua e o silêncio da sala, eu brotei. Não fui plantado, fui obra do acaso e da necessidade. Hoje, as pessoas — essas que se julgam dotadas de uma inteligência superior — tentam cercar o meu céu com pontos de interrogação. "Para onde você vai?", "O que pretende fazer?". Elas não entendem que a liberdade não é um plano de voo com escala marcada; é a recusa absoluta de dar satisfação. Voar contra o vento não é rebeldia juvenil. É o jeito que encontrei de sentir a resistência da vida, de saber que ainda estou aqui.  Sigo em direção ao nada. Para muitos, o nada é o abismo; para mim, é a passagem final, o ponto onde a cobrança cessa e o cansaço descansa. O início ficou lá atrás, na poeira da infância. O meio está dobrando a esquina. E o fim? O fim eu não apresso. ...

O Altar da Janela

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  O Altar da Janela Por Comendador Cesar A Salgueiro  Não espero pelo feriado, nem pelo fim do mês, Eu amo o tempo agora, em toda a sua nudez. Amo o dia que passa, o pulsar, a batida, O simples e imenso milagre de estar em vida. Amo o Sol que me invade e a chuva que cai, O ciclo do mundo que vem e que vai. Amo a brisa vadia que no rosto descansa, Lembrando que a alma ainda é criança. Minha varanda é o reino, o meu camarote, Onde a sorte me encontra sem que eu peça sorte. Ali vejo o mundo, o céu, o destino, E o que era gigante se faz pequenino. Amo a tarde de sábado, mansa e dourada, A promessa de pausa na longa jornada. E a manhã de domingo, com seu véu de paz, Onde o tempo se estica e o coração faz mais. Sem peso ou amarra, sem pressa ou engano, Amo a segunda, o humano, o cotidiano. Pois quem ama a semana, do início ao fim, Faz do próprio peito um eterno jardim. Bem vinda segunda-feira 🌺 Baseado na Crônica “O Ofício de Amar os Dias” de autoria do próprio Comendador.

O Ofício de Amar os Dias

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  Ofício de Amar os Dias Por Comendador Cesar A Salgueiro   Dizem que a felicidade é um horizonte distante, algo que se alcança apenas após grandes conquistas ou em datas marcadas no calendário.  Mas, para quem aprendeu a ler a poesia do cotidiano, a felicidade não é um evento; é um estado de presença. É o que acontece quando decidimos, simplesmente, amar o dia que passamos em vida. Amar o sol é fácil — ele nos aquece e doura a pele. Mas amar a chuva requer uma sabedoria mais profunda, a compreensão de que a terra precisa beber para que o verde continue vivo.  E a brisa? A brisa é o carinho invisível do mundo, aquele lembrete sutil de que estamos respirando e que, enquanto houver ar, haverá possibilidade. Existe um refúgio sagrado nesse rastro de gratidão: a minha varanda.  É aqui, entre o movimento da rua e o silêncio do lar, que o cronista da própria vida se senta para observar. Na minha varanda, o tempo desacelera. É o lugar de ver o mundo passar sem a pressa...

O Elogio do Vazio

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O Elogio do Vazio Por: Comendador Cesar A Salgueiro   Dizem que a natureza abomina o vácuo, mas hoje eu decidi convidá-lo para um café.  Estou diante de uma folha branca que me encara com a mesma intensidade com que encaro a parede. Não tenho uma tese, não tenho uma notícia urgente, não tenho sequer uma opinião formada sobre o barulho do mundo lá fora. Tenho apenas o nada. E, curiosamente, o nada é um lugar muito preenchido. Quando a gente se permite parar de "fazer", a gente finalmente começa a "ser". É um verbo difícil, quase esquecido em tempos de produtividade frenética.  Percebo, então, que o ar que entra no meu pulmão não pede licença nem currículo; ele apenas flui. O oxigênio é o único texto que realmente importa agora. Olho pela janela e vejo o movimento descompromissado da vida.  O vento balança a copa das árvores com um desleixo invejável.  Se a natureza não se obriga a dar frutos o ano inteiro, respeitando suas estações de dormência, por que eu haveri...