O Silêncio, O Lixo e a Pisadinha.
Dizem que a liberdade é um estado de espírito, mas, em Benfica , ela tem um CEP muito bem definido e muros que não negociam. Passei dez dias ali. Dez dias que cabem em uma vida inteira se você souber medir o tempo pela velocidade com que as páginas de um livro passam. Por uma questão de segurança, o meu palco era solitário. Ninguém dividia a cela comigo. Era eu, meus pensamentos e o vazio de um cubículo que, ironicamente, me entregou um tesouro: um livro abandonado no lixo. No meio do descaso, a literatura. Limpei a capa, sacudi a poeira do abandono e fiz dele meu interlocutor. Enquanto o mundo lá fora seguia seu curso, eu mergulhava em letras que alguém, em algum momento de desespero ou tédio, decidiu que não serviam mais. Para mim, foram o ar que faltava. O curioso de estar ali é que o silêncio nunca é absoluto. As paredes de Benfica são vizinhas da vida pulsante da comunidade. E a vida ali tem ritmo: a pisadinha . O grave vibrava no concreto...